terça-feira, maio 31, 2016

Filmes em revista sumária #543


O problema com “O Senhor Juiz“ (no original, «L’Hermine»), de Christian Vincent, é a sensação constante de que lhe falta qualquer coisa para ser qualquer coisa mais. E essa sensação vai crescendo à medida que vamos assistindo ao desenrolar das peripécias quotidianas do tribunal de província onde Fabrice Luchini (um dos melhores actores da actualidade) é rei e senhor do alto da sua imponente estola de arminho.

As personagens (arguido, vítima, advogados, testemunhas, etc.) lá se vão sucedendo umas atrás das outras, de forma mais ou menos desconexa, em registos estereotipados, parecendo acabadas de sair de um filme de Renoir (ou será Pagnol?), num típico filme de tribunal, excepção feita à da dinamarquesa Sidse Babett Knudsen, a estrela da série televisiva «Borgen», que aqui tem um assombroso pas de deux com o genial actor francês – aliás, as cenas entre os dois, em duelo de cumplicidade de olhares e frases é um verdadeiro assombro.

Está tudo muito bem apanhado, mas de facto, o resto desde “instantâneo” à vida triste e repetitiva de alguém a quem certa jurado vira tábua de salvação, é zero. Sabe a pouco, sabe.

segunda-feira, maio 30, 2016

Filmes em revista sumária #542


A ideia de se fazer em directo na TV um qualquer número escandaloso como forma de apelar a uma causa particular nem sequer é muito original e «Money Monster» não será o filme definitivo sobre a matéria, muito longe disso – até porque Lumet fê-lo de forma muito superior com «Network», em 1976 -, mas a verdade é que a sua realizadora, Jodie Foster, consegue agarrar-nos do princípio ao fim, sem falhas de maior, seja porque na verdade não se consegue antipatizar com Clooney, seja porque todos lá bem no fundo nos solidarizamos de imediato com Kyle Budwell, o rapaz desesperado e desajeitado que está zangadíssimo com o mundo. Ou seja, ainda, porque a história cola e a realização é eficiente.

O final do “directo”, esse, desde cedo se adivinhava qual seria. Tal qual que a culpa morre solteira ou, pelo menos, não cumpre a pena merecida. Constatação de facto: todos somos voyeuristas. A moral da história também era mais que certa: a vida continua. Que é como quem diz: the show must go on. Julia Roberts pode ter um papel secundário mas está soberba. «Money Monster» podia ser melhor? Podia.

sexta-feira, maio 20, 2016

Os bichos de Yorgos Lanthimos


Depois do eventualmente chocante «Canino» (2009), na foto, a «Lagosta», o novo filme do realizador grego.
Boa digestão!

quarta-feira, maio 18, 2016

Filmes em revista sumária #541


Dez anos depois de nos ter tirado o fôlego com o genial «De Tanto Bater o Meu Coração Parou», Jacques Audiard continua a não brincar em serviço, presenteando-nos com novo hino à Sétima Arte e ao cinema intimista, àquele cinema que acredita no pulsar humano, fazendo das nossas tripas coração mais uma vez.

«Dheepan» (2015) é um filme poderosíssimo, de uma força imensa, muita dela residindo no fabuloso trio de actores do Sri Lanka, aqui dirigidos com mestria por Audiard, mas também pela atmosfera que nunca o abandona, que se vai tornando cada vez mais asfixiante à medida que se vai desenrolando a história da péssima inserção social daquela família de ocasião, nos basfonds dos subúrbios de Paris, pré-anunciando a inevitável e sanguinolenta explosão final de Dheepan, o “nosso” tigre Tamil – um filme politicamente incorrecto, portanto.

Duplamente incorrecto porque capaz, por outro lado, de elogiar a redenção dos três protagonistas apenas possível em terras de Sua Majestade (razão tinha Yalini em querer ter ido lodo de início para lá) por contraponto à anfitriã França onde grassa uma falsa integração dos imigrantes, etc. – será uma perspectiva convencional do tema, certamente, polvilhada de clichés, dirão muitos, mas também por isso enriquecedora da assimilação do filme para posterior bate-papo, que é para isso também que o cinema serve.

Além do mais é um filme belíssimo, impregnado de poesia: das cores e dos borrões iniciais no palco da guerra civil no antigo Ceilão, ao risco de cal branca que o vigilante Dheepan pinta no seu bairro social, delimitando as fronteiras entre mundo e submundo, e àqueles planos segmentados, em pause still, que nos dão a ver a revolta do tigre, sem realmente a vermos. E disso são indissociáveis a fotografia de Eponine Momenceau, a música de Nicolas Jaar e a montagem de Juliette Welfling.

É difícil resistir a «Dheepan», que o diga o júri do Festival de Cannes do ano passado.

quarta-feira, maio 11, 2016

O Júri de Cannes 2016


segunda-feira, maio 09, 2016

Filmes em revista sumária #540


A «Suburra» de Stefano Sollima, baseada em romance de Carlo Bonini e Giancarlo de Cataldo, nada terá que ver, geograficamente falando, com a sua homónima da Roma Antiga, ali para os lados dos banhos de Trajano, mas tem tudo o mais que ver com os que nela habitavam numa espécie de gueto de vícios e costumes de toda a espécie, desde logo a corrupção. E que grande filme sobre a corrupção é «Suburra».

Não admira, portanto, que alguns romanos de hoje dele tenham sentido vergonha ou ficado ofendidos, mesmo sabendo que é apenas ficção. Ou dele tenham dito que não convence, pois. Ou que chamassem cabotinas às gloriosas interpretações daquele naipe de belíssimos actores, que nos fazem salivar no babete e pedir ancora di più. Por aqui, pu troppo, apenas podemos esperar que tamanha narrativa, mesmo que ficcionada, não colha senão nos espectadores, mas nem isso acontecerá, dado o quase anonimato com que ingloriamente está a ser exibida nas nossas salas, com lotações médias a rondarem os 30% da sala, talvez porque a promoção dos filmes continue soberbamente enviesada para os mesmos do costume (suburra?).

Sollima dá-nos um fabuloso western por terras de Ostia, a estância que todos querem transformar na Las Vegas do Tirreno e onde não faltam clãs e padrinhos das altas esferas, rixas e duelos a solo, cobardes que viram heróis (grande papel o do “sempre em festa” Sebastiano), vilões disfarçados de honoráveis deputados, traição e jogo sujo, ganância, poder, dinheiro, droga e prostituição. E muita música numa banda sonora fabulosa, de M83. E uma fotografia de Paolo Carnera (discípulo de Carlo di Palma) assombrosa, sobretudo quando trata as cenas com Numero 8 e Viola, o par de jovens tão criminosos quanto sonhadores, nas quais ele e Sollima conseguem escrever autêntica poesia. No final apoteótico, o derradeiro episódio de um filme contado em contagem decrescente, o apocalipse digno de Peckinpah. A melhor cena? A do assassinato do ex-presidiário à saída da discoteca.

"Don't Fucking Tell Me What to Do"


A faixa de Body Talk. E a mais recente das excelsas munições do amigo Amorim para a melhor das cedetecas escandinavas de Lisboa e arredores. Tak, Júlio :-)