terça-feira, abril 22, 2014

Filmes em revista sumária #449


É tempo de estreia de Wes Anderson. É tempo, assim, de um filme feito a régua e esquadro e de algo costumada e completamente diferente, para lá dos carretes da «normalidade» e do que vê por aí. Desta vez, porém, há muito mais desencanto no «puzzle» de personagens-caricatura (sempre tão próximas dos desenhos animados) e na «screwball comedy», em correria frenética (desde logo verbal…) por entre planos.

Mantêm-se as imagens vívidas e os «frames» dignos de postal turístico pincelado à mão, e o elenco e os seus amigos de luxo, tal como se mantém o humor negro corrosivo (ex. «gripe prussiana»), mas não há em «Grand Hotel Budapest» o habitual tom de paródia familiar, nem os filtros de imagem de um «Moonrise Kingdom», obsessivamente revivalistas. O tom é pesado e não há como fugir da fatalidade. Muito menos estamos perante o seu melhor filme, que continua a ser, sem muitas dúvidas, o seu primeiro: «The Royal Tenenbaums» .

Em «Grand Hotel Budapest» há um jogo profusamente simétrico e duplo, um «puzzle» onde o amor trágico e o poder bacoco se guerreiam, entre guerras mundiais e de alcova. No fundo, tudo gira em torno de dinheiro (que mais?) e de uma herança que motiva roubo e morte, e de um hotel de sonho, parado no tempo. Há peripécias impagáveis (por vezes roça o preciosismo de Buster Keaton) e piscadelas de olho cinéfilas, só vistas, mesmo, inteligentes e de um bom gosto refinado, a Lubitsch e Ophüls, por ex.

Ralph Fiennes e Mathieu Amalric são excelentes actores e estão soberbos. Os cenários (virtuais e reais) são um encantamento (desde logo os armazéns de Görlitz e o Zwinger), tal como a banda sonora de Alexandre Desplat é (mais uma vez) uma inspiração. As menções especiais vão direitinhas para o rosto de Mme. D, numa portentosa maquilhagem de Tilda Swinton, para a personagem de nome Zero (é um verdadeiro achado, o ser-se zero em tudo!) e, claro, para as obras de arte da pastelaria fina de Herr Mendl.

Wes Anderson comunica-nos no final do filme que se inspirou em Stefan Zweig. Fez bem.


In O Diabo (22.4.2014)

2 Comentários:

Blogger Unknown disse...

The Royal Tenenbaums» não é o seu 1º filme, mas sim o 3º! (sem contar a 1ª curta)!

3:13 da tarde  
Anonymous Artur Henrique disse...

"Take your hands of my lobby boy!":) Uma delícia. Carry on, Wes! Abraço

9:26 da manhã  

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