terça-feira, Abril 22, 2014

Filmes em revista sumária #449


É tempo de estreia de Wes Anderson. É tempo, assim, de um filme feito a régua e esquadro e de algo costumada e completamente diferente, para lá dos carretes da «normalidade» e do que vê por aí. Desta vez, porém, há muito mais desencanto no «puzzle» de personagens-caricatura (sempre tão próximas dos desenhos animados) e na «screwball comedy», em correria frenética (desde logo verbal…) por entre planos.

Mantêm-se as imagens vívidas e os «frames» dignos de postal turístico pincelado à mão, e o elenco e os seus amigos de luxo, tal como se mantém o humor negro corrosivo (ex. «gripe prussiana»), mas não há em «Grand Hotel Budapest» o habitual tom de paródia familiar, nem os filtros de imagem de um «Moonrise Kingdom», obsessivamente revivalistas. O tom é pesado e não há como fugir da fatalidade. Muito menos estamos perante o seu melhor filme, que continua a ser, sem muitas dúvidas, o seu primeiro: «The Royal Tenenbaums» .

Em «Grand Hotel Budapest» há um jogo profusamente simétrico e duplo, um «puzzle» onde o amor trágico e o poder bacoco se guerreiam, entre guerras mundiais e de alcova. No fundo, tudo gira em torno de dinheiro (que mais?) e de uma herança que motiva roubo e morte, e de um hotel de sonho, parado no tempo. Há peripécias impagáveis (por vezes roça o preciosismo de Buster Keaton) e piscadelas de olho cinéfilas, só vistas, mesmo, inteligentes e de um bom gosto refinado, a Lubitsch e Ophüls, por ex.

Ralph Fiennes e Mathieu Amalric são excelentes actores e estão soberbos. Os cenários (virtuais e reais) são um encantamento (desde logo os armazéns de Görlitz e o Zwinger), tal como a banda sonora de Alexandre Desplat é (mais uma vez) uma inspiração. As menções especiais vão direitinhas para o rosto de Mme. D, numa portentosa maquilhagem de Tilda Swinton, para a personagem de nome Zero (é um verdadeiro achado, o ser-se zero em tudo!) e, claro, para as obras de arte da pastelaria fina de Herr Mendl.

Wes Anderson comunica-nos no final do filme que se inspirou em Stefan Zweig. Fez bem.


In O Diabo (22.4.2014)

quarta-feira, Abril 16, 2014

Uma convenção muito especial


terça-feira, Abril 15, 2014

Vi accomodate!


Decorre até 18 de Maio, um pouco por todo o país (em Lisboa no Cinema S. Jorge, Cinemateca e Mercado de Sta. Clara - aqui talvez por ‘culpa’ da manteiga de «O Último Tango em Paris» …), a 7ª edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano, uma co-iniciativa de Il Sorpasso, Instituto Italiano de Cultura e Embaixada de Itália em Portugal. Um evento que é sempre bem-vindo, já que sem ele dificilmente se poderia ver cinema italiano, ainda que o sucesso assombroso (merecido) de «A Grande Beleza» possa obrigar a uma viragem nesta míngua crónica que nos circunscreve 365 dias a espectadores de filmes americanos (75% deles fitas), algum cinema francês e a uns pozinhos de cinematografias distantes.

A Festa voltou e traz com ela um pacote de secções, as mais diversas, sob o lema «La Famiglia». São longas e curtas em competição, de nomes desconhecidos e consagrados. Há nostalgia vinda de Pordenone, e de alguns Bava e dois Bertolucci. Há uma descoberta do fundo do baú - um Welles inacabado e julgado perdido até há pouco tempo, de nome «Too Much Johnson» - e há cinema juvenil do festival Giffoni. Há música, gastronomia, diversão. Motivos mais do que suficientes para aderirmos a esta mostra do que de melhor se vai rodando por terras de Fellini, Visconti, Rosselini, Pasolini, De Sica, De Santïs, Risi, Latuada, Damiani, Ferreri, Lattuada, Leone, Scola, Antonioni e «tutti quanti».

Sobre a família ser lema desta festa, cinematograficamente falando, é realmente verdade que a célula familiar é indissociável dos filmes italianos, dê lá por onde der. Seja por causa dos filmes de «gangsters, spaghetti e cannoli», seja por aquele copo-de-água épico da cena inicial de «O Padrinho», seja pelas personagens-sátira de «Amarcord» e dos patibulares de «Feios, Porcos e Maus». Seja por aquela mãe e aquele filho de «Mamma Roma», e por aqueloutros contemporâneos de «Eu Sou o Amor», por exemplo. É só escolher, num cinema que sabe sempre bem ver e ouvir num idioma lindíssimo. Rir, chorar e sonhar.

N.B. Para quando uma retrospectiva do bravíssimo Sordi?


In O Diabo (15.4.2014)

terça-feira, Abril 08, 2014

Filmes em revista sumária #448


A pergunta que se faz quando termina a projecção de «Obediência» é: como foi possível tanta estupidez junta, santo Deus?

A acreditar no pré-aviso feito ao espectador de que se está perante um filme baseado em factos verídicos, é realmente confrangedor ver como foi possível àquela pessoas, aparentemente instruídas, supostamente não acéfalas, serem apanhadas desprevenidas e levadas a acreditar tão ingenuamente no que uma voz do outro lado do telefone lhes ia dizendo, e a obedecerem ao que ela lhes ia ordenando que fizessem, algumas sem pestanejarem sequer. À inverosimilhança do que iam ouvindo, aqueles adultos responderam de forma ainda mais inverosímil. Mais, será que um episódio escabroso deste gabarito só é possível na América profunda? Talvez não.

Seja como for, há neste «huis clos» de Craig Zobel (a modos que um «Saw» mas sem sangue…) matéria do foro psicossocial (mesmo psicossomático) que nem especialistas nem os próprios protagonistas conseguirão explicar cabalmente: o dia em que tudo de mau aconteceu à gerente de loja (os pickles e o bacon não são por acaso…), o noivado que foi posto à prova dos nove, a integridade e a hombridade que se revelaram onde talvez menos se esperasse que se revelassem, etc.

Um filme «indie» na verdadeira acepção da palavra, uma pérola cinematográfica, mesmo, muito para além do que ultimamente a chancela tem vindo a certificar de modo automático, como se tudo se resumisse a um «check list» de teste americano.

Um filme que está muito bem realizado (basta dizer que não há um único tempo morto num filme que é passado, basicamente, no mesmo cubículo) e interpretado (os olhares, por exemplo, estão extraordinários). E tem pormenores deliciosos, como o da sequência tipicamente 70’s, já perto do final, do inspector da polícia a ir da esquadra para o local do crime. Pessoalmente, passarei a ir com outros olhos ao «fast food» do virar da esquina.

quarta-feira, Abril 02, 2014

No centenário de Alec Guiness


O melhor que se tem a fazer é comemorá-lo (re)vendo-o no pequeno écran, já que no grande só mesmo em cinematecas (às vezes, pode ser que alguém se lembre de o programar num ciclo de reprise, o que será inteiramente merecido, aliás).

No meio das mais de 50 aparições em filmes, telefilmes e séries, este grandíssimo actor da velha escola do Old Vic, tem por ‘cá’ um punhado de personagens para sempre inolvidáveis: Fagin («Oliver Twist»), as ‘n’ personagens em «Kind Hearts and Coronets», Coronel Nicholson («A Ponte do Rio Kwai»), Sidney Stratton («The Man in the White Suit»), Príncipe Faisal («Lawrence da Arábia»), Prof. Marcus («The Ladykillers»), Jim Wormold («Our Man in Havana»), John Barratt/Jacques De Gue («The Scapegoat»), >Pol («The Quiller Memorandum»), Obi-Wan Kenob («Star Wars»), Hitler («Hitler: The Last Ten Days»), e, claro, o televisivo George Smiley.

Ah, e estava completamente enganado quando afirmou de si mesmo: «Essentially I`m a small part actor who`s been lucky enough to play leading roles for most of his life..»

terça-feira, Abril 01, 2014

Filmes em revista sumária #447


Mais do que estar à hora errada no local errado, o que aconteceu ao jovem Oscar Grant naquele «réveillon» de 2008 ficou como «reality show» para a posteridade, filmado que foi em tempo real por testemunhas várias de telemóvel em punho, e registado dali para a frente como prova documental de uma tramitação judicial subsequente que resultou em nada, ou quase nada, não para ele, coitado, que foi desta para pior, mas para os seus e para todos quantos pensaram que se fizesse justiça, o que se fez mas pela rama. Mas um registo também para quem o soubesse desenvolver ficcionalmente.

Este episódio de brutalidade policial sem nexo correu mundo, mas a história das 24h que antecederam a rixa que descambou no desfecho fatídico que dá título ao filme, nem por isso, pelo que foi em boa hora que Ryan Coogler nos trouxe «Fruitvale Station - A Última Paragem», recuperando o trágico episódio e o que o precedeu. E se nunca viremos a saber se Oscar Grant quis ou não quis de facto corrigir o rumo da sua vida naquele dia, recusando viver em fio-de-navalha, ou se foi «apenas» vítima das circunstâncias, uma coisa é certa:

Este filme tem um qualquer condimento que o coloca muito para lá do filme deste género, tantas vezes panfletário, lugar-comum, em que a regra é ver quem debita mais «rap» ou profere mais palavrões. Até porque o facto de ser uma histórica comprovadamente verídica não pode explicar tudo, nem o explicam a realização virtuosa de Ryan Coogler, que não se deixa cair em tempos mortos nem resvalar para a lágrima feita, nem sequer a angústia ou o imenso remorso da personagem da mãe, incarnada por Octavia Spencer, essa extraordinária actriz.

Não, talvez seja tudo muito mais simples, talvez seja simplesmente porque o que aconteceu ao malogrado protagonista podia ter acontecido a qualquer um. É essa a tragédia humana.


In O Diabo (1.4.2014)

terça-feira, Março 25, 2014

Filmes em revista sumária #446


No rescaldo de «Uma Longa Viagem» a sensação que fica no ar é que tudo ou quase tudo correu mal ao australiano Jonathan Teplitzky com a adaptação ao cinema da autobiografia de Eric Lomax, um oficial e engenheiro de comunicações escocês, «maluquinho por comboios», que sofreu as passinhas enquanto prisioneiro de guerra do Japão em 1942, em Singapura, primeiro, e num campo de trabalhos forçados na Tailândia ocupada, depois; torturado que foi estupidamente nos intervalos de escravo ao serviço da construção do que viria a ficar conhecido por «Death Railway».

Desde logo, correu-lhe mal a tradução (mal-amanhada) do original «The Railway»: porquê uma longa viagem? Se é coisa que corre rapidamente no filme são os comboios e as viagens que o protagonista empreende, cá e lá. E a montagem, antes e depois da Guerra, prima também por «flashes» rápidos, algo trapalhões, como que em sintonia com a evolução histórica, por exemplo, por que passou a Birmânia, que virou Myanmar em 1989, mas que afinal de contas é hoje apenas Burma. Correu-lhe mal também o duplo pressuposto de que uma boa história verídica (e é muito boa a moral da história…) vale mais do que um bom argumentista, ou de que um par de actores de primeira água é certificado de qualidade mais do que suficiente para um filme. Um filme em contradição, também, centrado numa contradição factual: a de que os cerca de 400km de «carris do inferno» entre a Tailândia e a Birmânia são hoje um pólo turístico muito conhecido.

Restam-nos a fortíssima interpretação de Hiroyuki Sanada e, a espaços, a de Colin Firth, já que a de Nicole é quase zero (aliás, ela parece já não existir no meio de tanta plástica…). E o reforço do que já se sabia: Rio Kwai só há um, o de David Lean e Alec Guinness e mais nenhum.


In O Diabo (25.3.2014)

terça-feira, Março 18, 2014

Publicidade (definitivamente) não enganosa:


Filmes em revista sumária #445


Enquanto variante militarizada da série «Rat Pack», em boa hora recuperada por Soderbergh e amigos, de «Os Caçadores de Tesouros» apenas decorre como atractivo especial, para lá das estrelas de cinema que lhe dão corpo, a história ser verdadeira, ou perto disso. No resto é um rol de patuscadas, mais ou menos (mal) conseguidas, desempenhadas por actores bem conhecidos, em personagens bastante simpáticas (umas são mesmo apenas isso - Jean Dujardin só sabe rir, certo?), pelo meio de tiradas humorísticas e muita «acção», mas infelizmente sem o mínimo de cimento exigível para colar personagens e narrativa, não poucas vezes atabalhoada.

O plano de açambarcamento de um sem-número de obras de arte (alguém soube até hoje quantas foram?) a que Goering deu corpo no final da 2ª Guerra Mundial (nada que não tivesse sido feito antes por outros, poucos séculos antes, ainda que em menor dimensão, e nada certamente que não fosse copiado logo ali pelos soldados russos, com igual estratégia e fito), e para as quais algumas minas serviriam de esconderijo à moda de gruta de Ali-Babá; e a missão oficial de resgate e salvaguarda daquelas a que um oficial americano se lançou (com o necessário acordo de Roosevelt), pareciam ser garantia mais do que suficiente para que «Os Caçadores de Tesouros» fossem coisa bem melhor do que são: um filme de aventuras fraquinho (de guerra e acção é melhor nem falar), que nunca descola de um registo cómico e estereotipado desconcertante e que desperdiça o potencial (verídico) atrás referido.

Ou seja, Clooney não teve claramente unhas para tocar esta guitarra, e tinha valido mais se tivesse convencido o amigo Soderbergh (para já não falar em Spierlberg…) a ser o realizador em vez dele. Valham-nos algumas personagens (a de Bill Murray à cabeça), alguns cenários e peripécias, e saber-se que havia gente (ainda haverá?) como Donald Jeffries (excelente desempenho de Hugh Bonneville), disposta a morrer por uma obra de arte…

Kate Winslett, uma Estrela no Passeio da Fama


terça-feira, Março 11, 2014

Filmes em revista sumária #444


O Nebraska é um dos estados mais profundamente centrais dos E.U.A. A bem dizer, fica de tal maneira incrustado no meio daqueles que até tem 2 fusos horários. E se outrora foi palco de investidas históricas e de batalhas sanguinolentas com os «peles vermelhas», durante a Conquista do Oeste, o Nebraska de hoje nem 10 habitantes tem por km2, sendo um estado desoladamente despovoado, lento e monótono, local ideal, por conseguinte, para se rodar um «road movie» como este que agora nos traz Alexander Payne, autor do memorável «About Schmidt», filme com o qual, aliás, apresenta parecenças indisfarçáveis.

E se Payne decidiu bem pelo local, melhor optou pelo preto e branco para fotografar este desconsolado e melancólico filme, e mais ainda o fez em relação a Bruce Dern, escolhendo-o para protagonista, ele que «apenas» tem sido secundário - vilão, sobretudo - em dezenas de «westerns» e outros tantos policiais e que consegue aqui, quiçá, o momento mais alto da sua já longa carreira. Dern cola-se sobriamente à personagem de velho pai de família, de alguém que é quase ignorado e ostracizado pelos seus; um homem de poucas ou nenhumas palavras e que, incauto, é vítima de publicidade enganosa e, pior, dos amigos da onça e dos oportunistas de toda a espécie que lhe vão aparecendo pelo caminho ao longo da sua demanda.

No meio de tamanho desencanto e não menos frustração há lugar à poesia (sim, à poesia) e à esperança de que é sempre possível recolocar uma família no trilho certo, não obstante as adversidades. Melhor cena do filme, a de pai e filho à procura da prótese dentária na linha do comboio. Melhor «snapshot», o de tios e primos olhando bovinamente para a televisão.

terça-feira, Março 04, 2014

Filmes em revista sumária #443


Ver Roma e depois morrer, reza o adágio. Mas… será que já só há «mortos» por detrás de tamanha beleza e ninguém ainda se apercebeu disso?

O mote para este grandíssimo filme de Paolo Sorrentino salta-nos antes do genérico inicial, com o turista japonês que mira a cidade eterna desde a Fonte de Água Paula, na colina de Gianicolo, e que cai para o lado, fulminado por tamanha beleza. «Raccord» imediato e eis-nos no meio de uma festa frenética na cobertura de um prédio, sob o olhar da Martini (e que outra marca poderia ser?): a festa dos 65 anos de Jep Gambardella, personagem central e rei dos mundanos.

E se «A Grande Beleza» tem semelhanças evidentes com os filmes de Fellini («Dolce Vita» à cabeça), pelo caricato de algumas das personagens, pela «socialite» em contínuo estado de embriaguez psíquica, etc., há também um forte tom lynchiano (já presente no filme anterior de Sorrentino) que contrapõe a esse lado burlesco, optimista, «vivace» e romano do filme, um vórtice de profundo desencanto, uma nostalgia exasperante, a impossibilidade da fuga, a tragédia do faz-de-conta.

«A Grande Beleza» é um tratado sobre a decadência (que também é arte, não?), criação do homem (divina?), e sobre o labirinto de como se aceder à verdadeira beleza, à que não passa nem por cirurgias plásticas nem por fatos à medida, artistas de vanguarda e moralistas de partido. À que está fechada a «sete chaves» mas à guarda de alguém misterioso, elegante e… coxo. À que só os bafejados pela capacidade de peregrinarem às raízes do «eu» conseguem almejar.

Sem dúvida alguma que «A Grande Beleza» é um dos grandes filmes italianos dos últimos anos (muitos). Conta com um Toni Servillo absolutamente fabuloso, e sequências inteiras de se ficar sem fôlego (nós e ele), graças a ele e a um idioma único, uma banda sonora que remete para a Carrà, uma cenografia exemplar (dentro e fora do «plateau») e a …Roma. Façam favor de ficar até ao fim do genérico final, ponte sob ponte do Tibre.

Resumindo: uma «bellezza da morire».


In O Diabo (4-3-2014)

segunda-feira, Março 03, 2014

Obituário: Alain Resnais (1922-2014)


Há cada vez menos assim e «The Guardian» resumiu bem a sua carreira: «60 years of sensational cerebral film-making». Mas podia ter acrescentado que o seu cinema também é fresco, imaginativo, jovem, estético e de um extremo bom gosto, e que era insuperável a filmar cenas de amor, ou bien ...

terça-feira, Fevereiro 25, 2014

Filmes em revista sumária #442


A ideia por detrás de «Her», o novo filme do criativo Spike Jonze (ex-genro de Coppola), vai por muito para além do simples retrato, mais ou menos premonitório, de um futuro (não tão longínquo assim) em que o homem, ou o que dele restar, é uma marioneta do computador, melhor dito, de um sistema operativo topo de gama, a nível, inclusive, da sua vida sentimental. Nesse mundo, ao alcance de um clique, é mesmo possível apaixonar-se e sentir a «carne» de uma …voz, saída do dito sistema operativo.

Da ideia releva sobretudo o sério aviso feito à navegação: um alerta a todos os viciados em «likes» do Facebook (aqueles que têm milhares de amigos virtuais mas são continuam bichos-do mato na via real) e àqueles com quem nos cruzamos no dia-a-dia e vegetam vidrados no minúsculo écran, jogando ou enviando mensagens entre si, não poucas vezes de auscultadores nos ouvidos, falando sozinhos, até, alienados do que os rodeia.

E se a ideia é boa, o argumento também é, e Joaquim Phoenix volta a ser magnífico, desta vez na pele de um deprimido marido em processo de divórcio, que, profissionalmente falando, é um inspiradíssimo escritor fantasma de cartas de amor (e outras) para clientes que não podem ou não sabem já como escrever a terceiros, muito menos com afectos. Paradoxalmente é ele quem cai na ratoeira comercial do sistema operativo e no engodo sensual da voluptuosa voz de nome Samantha (e que outra voz senão a de Scarlett Johansson…).

Contudo, o que é bom acaba depressa e o filme entra rapidamente em circuito fechado, repetindo-se até se tornar monocórdico e chato. Jonze bem lhe podia ter imprimido algum «restart» mas não o fez. E o final também não ajuda. Moral da história: volta, HAL, estás perdoado, ao menos podiam apagar-te...

quarta-feira, Fevereiro 19, 2014

Filmes em revista sumária #441


«Labor Day» remete para aqueles dramalhões, mais ou menos «noirs», dos anos dourados de Hollywood, em que nos narravam (muitas vezes em voz off) histórias de fugitivos, mais ou menos facínoras, de «chain gangs», que se acabavam por anichavar em mulheres honestas, mais ou menos maduras, geralmente sozinhas e com prole. Em «Labor Day» temos Kate Winslet e Josh Brolin, um par de pêso, como naqueles anos tínhamos a Stanwyck e Robert Ryan ou Lupino e «Bogie». E se na trama central como no desempenho de ambos (mais o jovem Gattlin Griffith) o filme não deslustra e cumpre bem o seu papel de entretenimento, já aquele final... só mesmo nos anos 40-50, agora já só em novela. Melhor cena do filme: a da confecção da empada de pêssego.

terça-feira, Fevereiro 18, 2014

«Ghost of Mars», revisão em baixa


Tide's up. Time to stay alive.

Filmes em revista sumária #440


Não fora ter como realizador Stephen Frears e Judi Dench como actriz principal e provavelmente esta crónica sobre «Filomena» não seria escrita.

É que, por mais incrivelmente verídica que seja a história (e na realidade é) que dá corpo e alma a «Filomena» e por maior que seja o entusiasmo (contagiante, por vezes) com que Steve Coogan se dedicou a este projecto (e interpreta a sua personagem de jornalista de acontecimentos do quotidiano), facto é facto, e os nomes acima citados valeram de facto ouro a este filme.

Aliás, só por isso se compreende (mas não aceita) que «Filomena» esteja na corrida aos Óscares, pois, mesmo fazendo parte daquilo que nos vem sendo apresentado recentemente pela Academia como os «dez melhores filmes» produzidos em cada ano, é notório que o filme só por acaso pode constar de um tal lote.

Histórias e dramas de vida mais ou menos parecidos como o aqui relatado, estão mais que vistos e revistos, a começar por aqueles que são filmados em muitas das produções televisivas da própria BBC (aqui co-produtora com o Canal +), se bem que isso não queira significar que não mereçam continuar a ser filmados, longe disso.

«Filomena» é, portanto, um filme simpático, honesto e dedicado, bonito, mas pode perfeitamente ser visto no pequeno «écran».


In O Diabo (18.2.2014)

terça-feira, Fevereiro 11, 2014

Filmes em revista sumária #439


J.C. Chandor e Robert Redford (ou será ao contrário?) conseguem a proeza de manter o público agarrado durante 106’ ao que se vai desenrolando em «All Is Lost», ininterruptamente, mantendo-o na expectativa (isso agrava a proeza uma vez que o «trailer» respectivo contava o filme quase todo…) sobre o que irá acontecer ao grandíssimo Redford (e ele já soma quase 78 anos de idade!), à deriva naquela imensidão do Índico, à medida que as hipóteses deste homem do mar sobreviver e de chegar a bom porto, vão caindo por terra, incidente a incidente, por força dos elementos ou, simplesmente, por pouca sorte.

A presença física, ou melhor, o corpo de Redford está por todo o lado (como quase sempre está, aliás) e sem duplos, resistindo e recuperando das sucessivas adversidades, e todos os que assistem a este belíssimo filme partilham da sua angústia, primeiro, da sua persistência, depois, e, finalmente, da sua desistência.

A fotografia, a montagem, a música (produzida em parte pelo líder dos Magnetic Zero!) e, sobretudo, os magníficos efeitos especiais sonoros fazem deste filme corajoso (trata-se de um filme só com um protagonista e sem diálogos) e sobre a coragem, uma das mais agradáveis surpresas do ano, de que Hemingway, por exemplo, teria gostado. Em relação ao realizador, J.C. Chandor, que nos deu há 4 anos um também surpreendentemente e fabuloso «Margin Call», já se espera uma terceira boa surpresa, pois então.


In O Diabo (11.2.2014)

Obituário: Gabriel Axel (1918-2014)


E só pela «Festa de Babette» mereceu logo aí um lugar muito especial na história do Cinema; um filme inesquecível.

Obituário: Shirley Temple (1928-2014)


Da menina-prodígio, actriz, cantora, dançarina, política activa e embaixadora, hei-de guardar com particular carinho os filmes dos anos 30 da RTP de serviço público, ainda que a preto e branco. Era de facto única, a Shirley Temple, mais o seu sapateado e aqueles diálogos vivaços com Bill "Bojangles" Robinson.

terça-feira, Fevereiro 04, 2014

Filmes em revista sumária #438


Paródia negra, desinibida, extravagante, despretensiosa, imune à crítica de cachimbo e poltrona; esta «Golpada Americana» de David O. Russell lembra as memoráveis comédias inglesas de antanho (de que Mackendrick foi mestre) e do inimitável «scoundrel», aquele pequeno e médio empresário sempre pronto a enganar o próximo, nem que seja traficando ouro dentro de pequenas torres Eiffel, como em «Roubei Um Milhão», com o impagável Alec Guiness (sempre). Aqui, contudo, o tom é muito mais básico, primário, mesmo, afinal remete para o gangsterismo político e para as investigações do FBI dos anos 70. Mas há mais cor, também, porque tudo decorre como por debaixo de uma bola de espelhos, ao ritmo da «disco sound» dos anos loucos da 2ª metade do século passado.

David O. Russell deixa correr o marfim, bem, sem grande vontade de transmitir mensagens seja a quem for, agradar a este ou àquele; quem viveu aquele tempo, viveu, quem não viveu, paciência, que o filme é o que é e é suficiente: um filme de personagens (em certa medida até lembra Pirandello e as suas 6 personagens) loucas, exibicionistas, apaixonadas, mas personagens que nunca chegam a andar à solta, que o autor de «Os Três Reis» não deixa.

E é um filme de actores (que mal há nisso?) e que actores – Óscares, vá lá, para o Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, S.F.F., e para Jeremy Renner, se sobrar algum das outras categorias em apreço…

Inesquecíveis, são já a barriga e o penteado criativo de Bale (autêntica arquitectura capilar), a permanente de Cooper (num agente FBI, não sei não…), a poupa de Renner (digna da «mob» de Atlantic City) e, claro, os atrevidérrimos decotes Gucci de Amy Adams, a arrasarem, previsivelmente, toda e qualquer concorrência na corrida às estatuetas no Dolby Theatre. A melhor sequência é a da lavandaria, com o par de apaixonados enlaçados dentro de uma fileira de cabides a rodar sem parar, melhor era impossível.

Nota final: o elenco de «Boardwalk Empire» continua de vento em popa.


In O Diabo (4.2.2014)

segunda-feira, Fevereiro 03, 2014

Obituário: Maximiliam Schell (1930-2014)


Schell, que foi tão grande actor (também foi argumentista, realizador e produtor) quanto melómano praticante (compositor, maestro…), tinha um daqueles rostos, à semelhança de Cassavetes, por ex., que não se esquecem nem ignoram, antes irradiam carisma. Curiosamente, Schell, haveria de ficar marcado por papéis dicotómicos passados no decorrer e no pós-2ª Guerra Mundial, fosse como oficial da Wehrmacht ou espião duplo (e que grande papel em «Deadly Affair»!), fosse como caçador de nazis ou advogado do diabo (valer-lhe-ia o Óscar em «Julgamento de Nuremberga», 1961). No fim, cá para mim, descontados os inúmeros desempenhos enquanto actor secundário de filmes mais ou menos dispensáveis, e outras tantas séries televisivas menores (salvo, talvez, «Pedro O Grande», em 1986), talvez o seu papel maior tenha sido o de Arthur Goldman, a terrível personagem escrita por Robert Shaw para «The Man in the Glass Booth», por ele protagonizada em 1975, sob a direcção de Arthur Hiller. Maximilian juntou-se agora à irmã Maria, desaparecida em 2005...

Obituário: Philip Seymour-Hoffman (1967-2014)


Uma pena. Um desperdício.
E faço minhas as palavras de AA, orador precedente.

sexta-feira, Janeiro 31, 2014

Vem aí um Sorrentino topo de gama:


Com Toni Servillo em grande.
«Non volevo essere semplicemente un mondano, volevo diventare il re dei mondani».
Ou: Roma, una bellezza da morire.

terça-feira, Janeiro 28, 2014

Filmes em revista sumária #437


Anda por aí uma excitação talvez exagerada em redor de «O Lobo de Wall Street», quiçá na exacta medida das excessivas 3 horas que o filme dura e talvez porque a combinação explosiva de que Scorsese se serve para mostrar que ainda continua a ser (culpa da aventura fantasiosa de «A Invenção de Hugo»?), século XXI adentro, um dos maiores e mais jovens cineastas do mundo (alguém duvidava?), é de facto propícia a excitamentos: dinheiro, poder, sexo e drogas.

Tudo filmado em ritmo frenético e com decibéis capazes de furar o tímpano mais sensível (a fazer lembrar o pior de Oliver Stone, aliás), bem apimentado por doses cavalares de palavrões e cenas ousadas dentro (plausíveis?) e fora do escritório, mesmo para septuagenários oriundos do Bronx...

Seja como for, Scorsese está vivo, pois então, e recomenda-se. Apesar desta adaptação (clara) de «Tudo Bons Rapazes» ao mundo (verídico) dos corruptos, da bolsa e dos mercados dos anos 80-90 (terrivelmente contemporâneo…), estar longe do que de melhor ele nos deixou até agora, que disso não restem dúvidas, também. «O Lobo de Wall Street», funciona para Scorsese, talvez, como um «back to the tracks», seja.

A parceria (estratégica) de Scorsese com Di Caprio, essa vai de vento em pôpa (o actor arrisca-se a ganhar o Óscar mesmo sem grande esforço), e daquela que leva com a maga da montagem, de seu nome Thelma Schoonmaker, já nem se fala. Uma banda sonora impagável e uma recriação de época a preceito fazem o resto. Ah, já me esquecia: de vez em quando, há no meio do filme uns quantos planos, sobretudo na última hora, que só podiam ser de Scorsese, e está tudo dito.


In O Diabo (28.1.2014))

quarta-feira, Janeiro 22, 2014

Filmes em revista sumária #436


A partir de uma história verídica (o filão é inesgotável…), «O Clube de Dallas» é o relato filmado pelo canadiano Jean-Marc Vallée da ‘empreitada’, ilegal mas justa e desesperada, de Ron Woodroof e do que aquela lhe permitiu viver por mais sete anos quando lhe diagnosticaram apenas 30 dias de vida, ao contrair SIDA nos anos 80. O filme podia ser algo mais do que é mas no fim quase tudo se resume a dois papelões de Matthew McConaughey e Jared Leto, que combinam na perfeição o par de protagonistas. A moral da história fica para enfiar como carapuça, e bem, à indústria farmacêutica e à ‘Food and Drug Administration’ à época. E hoje, a quantas outras doenças acontecerá o mesmo?

«1984», revisão em alta


If you want a vision of the future, Winston, imagine a boot stamping on a human face forever.

terça-feira, Janeiro 21, 2014

Filmes em revista sumária #435


O tema da escravatura; da exploração e atrocidades de que os negros foram alvo durante tantas gerações por parte dos brancos norte-americanos, seus proprietários (!), até que Lincoln lhes pôs cobro em 1864; não parece estar esgotado no cinema produzido em terras do Tio Sam, mesmo que, para todos os efeitos, no que toca aos requintes de malvadez com que os brancos tratavam os negros, ou à libertação de facto destes últimos pela sua inserção de pleno direito na sociedade americana (o que só ocorreu na segunda metade do século XX …); «Mandingo» (1975), de Richard Fleischer, e a série televisiva «Raízes» (1977) sejam, talvez, o expoente máximo. Seja como for, e talvez por culpa de Tarantino e do seu «Django Libertado», o tema está de volta e pela mão de um inglês negro de nome Steve McQueen!

Não sendo um filme-choque, longe disso, nem sequer pioneiro, como já se viu, na nudez e crueldade com que retrata a epopeia de dor e sofrimento por que passaram os escravos nas plantações de algodão e afins, os estupros e violações várias de que foram alvo, etc., «12 Anos Escravo» tem dois argumentos de pêso que valem perfeitamente uma ida ao cinema mais perto de si: um elenco de luxo (Chiwetel Ejiofor lidera, como pode, aliás, Michael Fassbendes, Brad Pitt, Paul Giamatti, Paul Dano, Benedict Cumberbatch), e uma história tremendamente verdadeira, contada na primeira pessoa mas de ‘pernas para o ar’: a saga de um homem livre que é feito escravo e do que ele sofre para voltar a ser livre – parábola sobre a actualidade em que todos vivemos?

Steve McQueen tem nesta sua terceira longa-metragem a possibilidade de dirigir muitos actores e figurantes, em cenários interiores e exteriores, feitos de grandes e requintados espaços, tão verosímeis e de época quanto possível, e não se dá nada mal, conseguindo enfiar o seu habitual cinema de rostos, silêncios, desesperos e subúrbio, num ‘pronto-a-vestir’ que, tal qual os índios ou a 2ª guerra mundial, continuará a ser filão para o grande ‘écran’.


In O Diabo (21.1.2014)

terça-feira, Janeiro 14, 2014

Filmes em revista sumária #434


Se dúvidas houvesse sobre se o filão criativo dos irmãos Coen tinha ou não chegado a um bêco sem saída, elas ruem por completo com «A Propósito de Llewyn Davis», pois, embora seja mais um filme em que os irmãos judeus do Minnesota nos contam a história (e como os autores de «Fargo» sabem contar histórias…) de mais um anti-herói americano - um cantor ‘folk’ irremediavelmente falhado, incapaz de superar o desaparecimento do parceiro de duo, decididamente não talhado para ser figura de cartaz - tudo é tão naturalmente fluído, simples e renovado, que não podem restar dúvidas a ninguém: o bom cinema Ethan e Joel Coen está para dar e durar.

Estamos, é certo, longe do espavento alucinado do escritor bloqueado de «Barton Fink», ou, não tão longe assim, da inabalável e teimosa honradez de «Um Homem Sério», mas esta peregrinação interior de Llewyn Davis toca-nos fundo, como poucos filmes tocaram nos últimos tempos, muito por culpa, também, de Oscar Isaac, aqui voluntariamente despido de qualquer carisma. Neste sentido, é um filme sobre a vida de alguém vulgar de Lineu.

É também um filme de pormenores: da inimitável e ainda genuína Greenwhich Village ao ’MacGuffin’ daquele lindo gato amarelo aventureiro (chama-se Ulisses!), que atravessa a narrativa e a própria personagem central; daquela banda sonora que só podia ser americana (nota: não sou fã, mesmo nada, da música ‘folk’) àquele que é o mais bonito W.C. déco filmado nos últimos anos pelo cinema norte-americano, coroando uma sequência toda ela estranha e surreal com a personagem ‘overacted’ de John Goodman.

No resto: a usual excelência dos manos Coen na direcção de actores, na fotografia, na montagem, etc. Fica por decifrar quem faz de marido da cantora insultada por Llewyn , que dá a este uma verdadeira coça nas traseiras do bar; ah, como gostava que fosse Kris Kristofferson...

sexta-feira, Janeiro 10, 2014

Out of the Past», revisão em alta


Ann Miller: She can't be all bad. No one is.
Jeff Bailey: Well, she comes the closest.

quarta-feira, Janeiro 08, 2014

Filmes em revista sumária #433


Parafraseando pessoa amiga: «A Vida Secreta de Walter Mitty» é um filme muito bonito, especialmente porque a Islândia nunca antes houvera sido filmada assim e porque tem uma mensagem igualmente… bonita. Assim seja (é-o de facto) mais a mais dado o tempo festivo de viragem de ano em que nos encontramos, que se deseja feliz e minimamente optimista. Mas que falta qualquer coisa a este filme ‘fétiche’ da família Goldwin (Samuel, pai, produziu a primeira versão de Norman Z. McLeod, com Danny Kaye, em 1947), que esteve para ser protagonizado/realizado por aquele e aqueloutro para no final o ser, cumulativamente, por Ben Stiller, lá isso falta, não haja dúvidas, e talvez o essencial, mesmo: garra.

Stiller não é McLeod, muito menos Preston Sturges ou Capra, pelo que paisagens idílicas à parte e descontadas as fabulosas e inolvidáveis capas e reportagens fotográficas da Life Magazine (célebre revista de actualidades, tragicamente sentenciada à morte no último quarto do século XX nunca se percebeu muito bem porquê…), que se vão sucedendo em peripécias bem imaginadas por Stiller, aliás, falta muito para que este filme de aventuras fantásticas, vividas na primeira pessoa por um simples funcionário do departamento de negativos, que por causa do amor as deixa de sonhar acordado, seja de facto um filme inolvidável (e não o é).

No cômputo final, deste Walter Mitty ficam algumas cenas bem ‘pintadas’ (Instagram?) em cenários reais de assombro, umas (as da viagem em skate e da erupção vulcânica, por exemplo); de apurado sentido cénico (e humorístico, claro, ex. a ‘charge’ a Benjamim Button), outras; e o grande final (feliz) da última capa da Life (a lembrar Chaplin) seguida de imediato pelo entrelaçar das mãos. Sejamos optimistas, pois então!

domingo, Janeiro 05, 2014

Os meus filmes de 2013:


1. «Lore» (Cate Shortland)
2. «Blue Jasmine» (Woody Allen)
3. «Fausto» (Aleksandr Sokurov)
4. «Django Unchained» (Quentin Tarantino)
5. «A Caça» (Thomas Vinterberg)
6. «Lincoln» (Steven Spielberg)
7. «Mud» (Jeff Nichols)
8. «The Place Beyond the Pines» (Derek Cianfrance)
9. «Dans la Maison» (François Ozon)
10. «Passion» (Brian de Palma)

segunda-feira, Dezembro 30, 2013

Filmes em revista sumária #432


«O Grande Mestre» começa por ser uma homenagem justíssima de Wong Kar-wai ao inesquecível Bruce Lee, por ocasião dos 40 anos (!) sobre a sua morte, celebrando aquele mas por via da história do seu mestre de wing-chun, Ip Man, por certo uma personagem quase desconhecida da generalidade dos espectadores mais distraídos destas coisas das artes marciais, grupo no qual, aliás, o escriba se inclui.

O autor de «In the Mood for Love» ‘cavalga’, assim, a onda recente dos filmes de artes marciais, pisca o olho a Hollywood e aos Óscares, presenteando-nos com mais um ‘art movie’ de encher o olho e pedir por uma sequela.

A história à volta do mestre de Lee será verdadeira q.b., mas isso também pouco importa, contas feitas. O que interessa é a alma chinesa dos anos de Chiang Kai-shek e da ocupação japonesa, a dos bordéis e das casas de ópio, das artes marciais como refúgio de incorrupção. Wong Kar-wai resiste à violência gratuita e não há mesmo um único plano com sangue a jorrar abundantemente, nem gritos histéricos sequer a acompanhar os golpes de mãos e pés. Haverá pouca secura narrativa à Lee, mas há muito e bom Wong Kar-wai.

Estamos no campo do detalhe. Dos grandes-planos. Dos olhares entre duelistas. Das sapatilhas de cetim que permitem combater bailando. Dos pingos de chuva que trespassam como balas. Dos novelos de fumo e dos rostos maquilhados de faiança. Muito deste filme, inclusive, é para adivinhar, desde logo o erotismo nos bordéis e nas casas de ópio. Tudo é contemplativo, uma espécie de Leone em mandarim (veja-se a colagem sintomática a «Era Uma Vez na América»). Os ‘décors’, as cores, a noite, a música e …Tony Leung fazem o resto.

Dito isto, Wong Kar-wai continua igual a si próprio e a gerência agradece.


In O Diabo (30.12.2013)

segunda-feira, Dezembro 23, 2013

Filmes em revista sumária #431


«Casablanca» está de volta aos cinemas!

Sim, é verdade, está de volta aquele filme já muito velho, com setenta anos, filmado ainda a preto e branco, que até já foi colorizado, passado, basicamente, num café de Marrocos, durante uma tal de 2ª Guerra Mundial, em que as personagens passam a vida a fumar, a beber e a jogar, e os protagonistas a chorar sempre que ouvem um pianista negro tocar e cantar «As Time Goes By», que acaba com o chefão dos nazis morto a tiro e o herói da resistência a voar para Lisboa, para chefiar a luta pela Liberdade, e que as televisões gostavam de emitir ‘ad nauseam’.

Ironias à parte, o imortal filme, de Curtis e com Bogie e a Bergman, está de volta e graças a um punhado de entusiastas dos velhos clássicos (acham, e bem, que os filmes do ‘antigamente’ são para serem vistos no cinema), no âmbito de uma parceria (privada para uso do público) em boa hora desenvolvida pela Columbia TriStar Warner e os cinemas UCI EL Corte Inglés, passe a publicidade.

Demos graças a isso e voltemos por 100 minutos àquele ‘casbah’ inesquecível e àqueles actores impressionantes: às expressões e à voz de Bogart (e que actor gigante ele se torna no grande ‘écran’!) e aos olhos da radiosa Ingrid Bergman, mas também àquela superlativa galeria de secundários, encabeçada pelo insinuante Rains, o chacal Veidt, o corrupto bonacheirão Greenstreet e o traiçoeiro Lorre, mais outros tantos talentos em pequenos papéis impagáveis (o criado, o ‘barman’, o ‘croupier’, o carteirista, o casal de turistas na esplanada, o par de velhos emigrantes alemães).

Celebre-se, pois, enquanto dura, o regresso daquele que pode não ser, e não é, o mais perfeito dos filmes, mas que é forçosamente um dos mais belos filmes de sempre, quiçá, mesmo, o filme que resume em hora e meia e em apenas numa palavra tudo quanto é Cinema: romance!


In O Diabo (23.12.2013)

sábado, Dezembro 21, 2013

Feliz Natal!


terça-feira, Dezembro 17, 2013

Filmes em revista sumária #430


«Oldboy» de Park Chan-wook à parte (chega até a ser insultuosa a colagem...), este filme de Spike Lee (é mesmo?!) vive sobretudo de uma força da natureza chamada Josh Brolin (decididamente, um novo Nolte) e de alguns momentos bem conseguidos, como sejam a fabulosa sequência imediatamente pré-rapto (os planos da câmara, as imagens 'febris', etc.) e a batalha mortífera ao ralenti, com Brolin jr. de martelo na mão a bater e estropiar em tudo quanto é gente. Tudo o mais é bocejo, até mesmo a' vida aos quadradinhos', passada que é a fase da surpresa.

segunda-feira, Dezembro 16, 2013

Obituário: Peter O' Toole (1932-2013)


É verdade que o autor de «Os Sete Pilares da Sabedoria» deve parte da sua imortalidade àquele O' Toole perfeito que David Lean nos ofereceu, lançando-o num filmaço chamado «Lawrence of Arabia», mas é injusto esquecermos «Lord Jim» e «The Lion in the Winter», dois outros títulos em que o actor está soberbo; ele que foi, aliás e para mal dos nossos pecados, um actor de teatro fora de série. Destes, dos que merecem passar de facto pelo Grande écran, já não se fazem, não senhor, e cada vez há menos.

Obituário: Joan Fontaine (1917-2013)


Joan Fontaine, tal como a irmã, Oliva de Havilland, é/foi rosto indissociável de um sem-número de filmes 'incontornáveis' da História do Cinema, mas acho que nunca foi tão serenamente bela, frágil e simples como em «Rebecca»; uma personagem que, paradoxalmente, não era assumida na primeira pessoa. E «Last night I dreamt I went to Manderley again», a mais imortal das frases que haveria de nos deixar a todos.

sexta-feira, Dezembro 13, 2013

Mr. Choo Choo, algures no Oeste, entre Leone ...


Breslau, o Sena e o Entroncamento. Obrigado, MJT!

terça-feira, Dezembro 10, 2013

Filmes em revista sumária #429


Não será fácil, mas até perigoso, falar, ou melhor, tentar falar ou escrever sobre «2001, Odisseia no Espaço». Trata-se de um daqueles filmes que cada qual interpreta à sua maneira, consoante o experimenta em experiência visual e sensorial muito e só sua. Além disso, milhões de caracteres já terão sido escritos sobre ele. Aliás, como o próprio demiurgo Kubrick enunciaria amiúde, «You're free to speculate as you wish, about the philosophical and allegorical meaning of 2001».

Não especularei, portanto, acerca do enigma omnipresente, nem do monólito que do espaço cai por mão alienígena (Deus?) no planeta então dos macacos, permitindo-lhes, pela dádiva da inteligência, a argúcia e o engenho de, através de um simples raccord (o mais famoso da história do cinema?) de milhões de anos, viajar de um osso-arma na alvorada do homem a uma valsa galáctica algures entre a Terra e Júpiter. Muito menos irei especular sobre o reencontro do homem com o Homem, no grande final, para lá das cores e da luz, no Infinito.

Cingir-me-ei à beleza e à poesia de «2001, Odisseia no Espaço» e à experiência inolvidável que é voltar a vê-lo, cinema bigger-than-life, no grande écran, mesmo que sem respeitar o esmero obsessivo de Kubrick quanto às condições de exibição em sala (assim não fosse e talvez só se pudesse exibir no São Jorge a reprise actualmente em exibição em Lisboa); ao melhor filme de ficção científica de sempre (não será ele a própria sci-fi?) e a um dos melhores filmes jamais feitos, a par de «Citizen Kane», «E Tudo o Vento Levou» e «Casablanca», só para falar dos mais óbvios. E àquela técnica state-of-the-art , até hoje inultrapassável mas sempre decalcada. A HAL, talvez o mais ‘actor’ de todos. E Kubrick, que através de «2001» fez tanto por Nietzsche quanto por Richard Strauss, pela matemática e pelo xadrez.

«Open the pod bay doors, HAL».


In O Diabo (10.12.2013)

Obituário: Eleanor Parker (1922-2013)



Sempre elegante e fotogénica, Eleanor Parker passou por todo o tipo de filme, da espionagem à 'coboiada', do musical ao filme negro, das aventuras de capa e espada ao dramalhão mais piegas, mas para mim será sempre a mulher do atormentado Kirk Douglas de «Detective Story», de Wyler; ironicamente, Eleanor Parker morreu no mesmíssimo dia em que aquele fez anos…

You used to have a pretty good build, y'know? You did! Now you're starting to look like a - an egg!


E lá vai Teri Garr desarvorada, com malas e bagagem, 'rumo' a Bora-Bora.
Um dos mais belos filmes de sempre, um dos maiores de Coppola, passado na véspera do 4 de Julho (só podia), pelo meio de néons e planos ousados, acompanhados ao piano e voz de Waits:
Um prodígio de encenação. Faz falta uma reprise destas!

terça-feira, Dezembro 03, 2013

Filmes em revista sumária #428


É verdade que Ridley Scott nunca ousou tanto em termos de sexualidade (mais linguagem do que outra coisa) como neste «Conselheiro»: da cena de abertura ao garrote que degola Pitt, das caçadas do casal de chitas à «chita» Diaz; mas a verdade é que o filme não passa disso. E do tradicional bom gosto nos décors e indumentárias que o autor de «The Duellists» nunca esquece e faz por que não o esqueçam. O resto é mau de mais para ser verdade, mas é: um chorrilho de disparates filosóficos chamados diálogos (?) – Ruben Blades bate os demais…-, personagens aparvalhadas (que fazem Bardem e Pitt, vestem Versace e Armani?), um argumento oportunista, cenas descabidas, etc. Fassbender anda perdido e subaproveitado, a tatuada Diaz (piscar de olhos a «Blade Runner»?) faz o que pode e Pé rouba todos os outros nos breves momentos em que aparece. Em suma, falando da fronteira americana mexicana, vale mais um episódio da série televisiva «The Bridge» do que os insuportáveis 120’ do último filme de Ridley. Bons momentos: o assalto ao camião traficante e a execução do mediador (do quê?) Pitt.


In O Diabo (3.12.2013)

Filmes em revista sumária #427


Não é qualquer um que sabe como manter o espectador pregado ao grande écran durante hora e meia, ininterruptamente, com apenas dois actores em campo (pas de deux), encerrados numa pequena sala de teatro (huis clos), sem ponto e num perigoso jogo de sedução, a partir da mítica obra de Sacher-Masoch (vale a pena a edição Livros do Brasil…). Polanski consegue-o em «Vénus de Vison». Conseguira-o em «O Deus da Carnificina» mas agora, reduzindo o elenco a metade, nos mesmos m2 de palco e nos mesmos 90’, acabou por dobrar o risco de flop, que só não aconteceu na parte final desta charge imaginativa (épatante, por vezes) ao ‘sou, não sou, podia ter sido se não fosse’, quando a encenação redundou num travesti grotesco desnecessário; graças à excelência com que dirige os actores (Malric é sempre soberbo mas Emmanuelle Seigner sem Polanski…), e, claro, aos acutilantes diálogos que vão brotando daqueles, compulsivamente inspirados em Masoch. Porque aquele volte-face tonto podia ter dado cabo de tudo o resto daquele sedutor teatro filmado, em fio-da-navalha, que é acompanhado ao piano por uma belíssima música de Alexandre Desplat (lembra Ligeti). Um ensaio sobre um outro ensaio, que decorre num teatro fictício numa Paris deserta e maravilhosamente húmida.


In O Diabo (3.12.2013)

terça-feira, Novembro 26, 2013

Filmes em revista sumária #426


É no título à presente crónica sobre essa pequena pérola do cinema francês, ainda em exibição (tímida) nas nossas salas, chamada «De Bicicleta com Molière»; e que um desiludido mas peremptório Alceste, a páginas tantas, dispara a Filinto, seu amigo de longa data, na 1ª cena do Acto I de «O Misantropo», de Molière; que se resume a moral da nossa história: a sociedade é hipócrita; e se é verdade que ‘em cada esquina há um amigo’, também é verdade que amigos de Peniche (ou serão da onça?) há muitos, demasiados, que o digam os Alcestes deste mundo.

Louis Jouvet (talvez tenha sido o maior dos actores franceses, ex-aequo com Michel Simon) pode ter receado, justificadamente, aventurar-se por Alceste, como é referido neste simpaticíssimo e bem-humorado (quand même) filme de Philippe Le Guay; mas Fabrice Luchini apostou, arriscou e ganhou, sobretudo ao esforçado (nunca é tudo) Lambert Wilson, naquele ‘cara ou coroa’ que vai pontuando o filme, marcando as entradas em cena de cada um. Ganhou ainda porque encarna na perfeição o actor voluntariamente exilado do mundo (ainda que uma ilha a que se chegue por ponte não seja assim tão exílio), preenchendo a personagem de acordo aos tempos que correm e ao modo como hoje se fala (prodigiosa, a cena da boa ou má dicção…), ainda que apenas alguns trechos de peça tenham sido filmados e a espaços.

Uma fotografia belíssima (os grandes-planos dos actores durante os ensaios, e o aproveitamento estético e de luz dos interiores, sobretudo), e aquela reconhecida certeza de se estar perante um filme só possível aos franceses, fazem o resto, o resto fica na magia da canção de Montand que acompanha a melhor das cenas, com os dois amigos disputando ao sprint a vizinha italiana «On était tous amoureux d'elle, On se sentait pousser des ailes, A bicyclette…». No fim, o que conta somos nós.


In O Diabo (26.11.2013)

quarta-feira, Novembro 20, 2013

Parabéns a dobrar:


A Sean, nascida hoje, mas em 1959.
Is this to be an empathy test? Capillary dilation of the so-called 'blush response', fluctuation of the pupil, involuntary dilation of the iris
(in «Blade Runner», 1982)


A Bo, nascida hoje mas em 1956.
Ah, yes, I took 4 of your birth control pills, I hope that's okay. (in «10», 1979)

terça-feira, Novembro 19, 2013

Lang


Fritz Lang (1890-1976) pertence àquele naipe de génios que marcaram indelevelmente o Cinema, a quem não se recusa filme algum em que contexto for, independentemente de ter havido vários Lang ao longo dos 40 anos em que escreveu, produziu e realizou (e interpretou) filmes, da Alemanha aos E.U.A, do final da Grande Guerra aos anos 60 do século XX. Vem isto a propósito do ciclo dedicado ao vienense, que segue na Cinemateca até Dezembro, sob o título «Fritz Lang – O Tempo do Cinema», e em que rumar à Barata Salgueiro significa isso mesmo: romaria.

Sendo a sua filmografia incontornável no seu todo, há filmes mais incontornáveis que outros, pelo que me perdoem os mais ferozes defensores da sua fase americana (a do café a escaldar atirado por Marvin à Grahame), mas é-me impossível colocar no mesmo plano o Lang dos tempos áureos da ‘parceria estratégica’ com Thea von Harbou e os filmes de ‘cowboys’ (nunca me convenceram o rancho das ilusões da Dietrich, nem o regresso do mano James, nem os tais de Conquistadores …), ou equiparar as suas aventuras pictóricas à Joe May, do final da sua carreira, com aqueloutras empolgantes dos «Nibelungos» (1924).

Com efeito, se pudesse pedir à Cinemateca para projectar sessões contínuas ad nauseam de Lang, pedi-lo-ia ‘apenas’ para 4 americanos, «O Segredo da Porta Fechada», «Almas Preversas», «Suprema Expiação» e «Fúria», e para 9 alemães: «O Testamento do Dr. Mabuse», «M», «Mulher na Lua», «Os Espiões», «Metropolis», «A Morte de Siegfried» e «A Vingança de Kriemhild» («Os Nibelungos»), «Dr. Mabuse, O Jogador» e «A Morte Cansada»:

Deliraria com Redgrave apavorado em abrir a porta, a Bennett a dar cabo do coração e da bolsa a E.G. Robinson, Tracy perseguido loucamente por uma multidão enfurecida, um intemporal ‘génio do mal’ chamado Mabuse, os gritos lancinantes de Lorre «muss ich», uma nave futurista aterrando de pé na Lua, o robot Maria e uma cidade de assombro, um superlativo Klein-Rogge no meio de espiões e mitos, e o Amor, que é mais forte do que a Morte, Expressionismo.


In O Diabo (19.11.2013)