terça-feira, Outubro 28, 2014

Filmes em revista sumária #475


Desde já uma nota prévia: é bom termos de volta e em forma um Denzel Washington como o deste «Sem Misericórdia» (título infinitamente menor se o compararmos ao justicialista «The Equalizer», no original), um filme em que o actor de «Glory», agora com 60 anos (parece mentira, sim…), dá o corpo ao manifesto, ainda que dobrado quando foi preciso, claro; carregando às costas todas as cenas em que entra e que devem ser … todas.

Não se julgue que «Sem Misericórdia» é uma espécie de matar saudades de Anthony Fuqua (realizador) dos filmes de vigilantes dos anos 70, que ele deve ter visto e muito na sua adolescência, que não é, longe disso. Podemos estar perante uma história banal e já vista, com alguns tiques de Bronson, mas a acção explode quando tem que explodir, sem violar o método e a máxima de que deve haver tempo para tudo, mesmo para a fúria.

«Sem Misercórdia» é também um filme de detalhes, onde a contemplação assume foros de pinceladas de Edward Hopper (é uma evidência). E não se imagine que se trata de um policial sob a forma de teledisco, apesar de alguma osmose estilística inevitável e óbvia, até porque Fuqua passou por lá.

Tem os seus «clichés» (ex. o agente retirado, a máfia russa, a jovem «call girl» - e quão magnífica está Chloë Grace Moretz) mas trata-se de um belo policial (podia ser oriental … até lá está a «cerimónia» do chá) e uma boa surpresa, numa altura em que de Hollywood quase tudo é redundante. É ainda o melhor filme de Fuqua desde há muito.

Vale a pena ir ver «Sem Misericórdia», sim, e sem pressas.


In O Diabo (28.10.2014)

terça-feira, Outubro 21, 2014

Filmes em revista sumária #474


«A Boa Mentira» trata das agruras por que passa um grupo de meninos feitos órfãos pela guerra civil do Sudão e, à partida, seria um daqueles filmes que teria tudo para ser pouco mais do que ignorado, não fora talvez um chamariz chamado Reese Witherspoon.

Na verdade, a enxurrada diária de imagens-choque exauridas nos nossos televisores, por força da nefasta actualidade das guerras e atrocidades que se desenrolam ali e em tantos outros locais do planeta, poderia condenar inapelavelmente o filme a esse triste desígnio, injusto.

Tal não acontece e os «culpados» da boa surpresa são, em primeiro lugar, o realizador Philippe Falardeau (premiado anteriormente, aliás) e a argumentista Margaret Nagle (idem), por terem conseguido evitar, apesar de tudo, que as quase duas horas do filme caíssem na tentação fácil de puxar a brasa à «verdade» puxa-lágrimas ou ao panfleto político-racial, antes construído um drama, que é inegável e terrível, pontilhado de lufadas de humor e alegria, sem se deixar perder no rasto da solidariedade e do …coração.

Mas também o é, e muito, o trio de protagonistas, os três ex-refugiados sudaneses que nos transmitem na primeiríssima pessoa o drama, a perda, a dor, o desespero, a desorientação e o milagre. A verdade (uma verdade?).

«A Boa Mentira» não será uma obra-prima da 7ª Arte, muito longe disso, mas é um filme honesto e tem uma fotografia espectacular. Além do mais dá gosto saber que, afinal, os esquemas de ajuda internacional aos refugiados (a começar pela norte-americana) funcionam e podem mesmo providenciar soluções miraculosas, aqui e ali. Haja esperança. Ah, e que há mentiras que são boas, pois há.


In O Diabo (21.10.2014)

terça-feira, Outubro 14, 2014

Filmes em revista sumária #473


«Em Parte Incerta» é o título português, mal achado e perdido na voragem de uma tradução “imaginativa”, do último filme da fabricação, reconhecidamente de qualidade acima da média, de David Fincher, autor marcado até aqui por «Seven-7 Pecados Mortais» (1995), primeiro, e por «Clube de Combate» (1999), depois, e que se espera o seja doravante por este mesmo:

À partida tudo apontava para um simples “who done it?”, mas na verdade trata-se da história de um amor doentio e cruel, partilhado por um casal em equilíbrio em fio-de-navalha, que é posto à prova, progressivamente, por uma série de charadas e ameaças (a criança frustrada que ela nunca deixou de ser, a diferença de status e de quase tudo entre ambos, a exposição mediática a que são submetidos, etc.), esgrimido em diálogos fora-de-série (talvez graças à dupla presença de Gilliam Flynn, argumentista e autora do “best seller” que o filme adapta) entre Rosamund Pike, finalmente reconhecida (vem aí um Óscar?) e o eterno canastrão Ben Affleck.

Fincher está nas suas sete-quintas a realizar este autêntico raios-X às cenas da vida conjugal de Amy e Nick, conseguindo que o espectador entre em jogo e se impregne do doloroso novelo, cena a cena, metendo-se na pele do investigador/a de serviço (outro clássico em Fincher), escalpelizando o “com a verdade me enganas” que cada um atira à sua cara-metade.

Fincher tira o máximo partido de todos os actores mas também da excelência da fotografia do repetente Jeff Cronenweth (filho de peixe sabe nadar…) e da música dos oscarizados Trent Reznor e Atticus Ross, chegando facilmente ao resultado que se desejava: um “come back” em grande, ainda que o filme quebre um pouco no desenlace final, talvez algo cansado de tanto “twist”.

O momento maior desta anatomia de um crime, contudo, cai fora do jogo principal, embora seja também fruto de outro jogo amoroso: o desenlace visceralmente sanguinolento da cena de amor com Desi Collings, o frustrado admirador de Amy, enquanto o segundo momento é o do grande-plano do rosto desta, abrindo e fechando o filme, ao som da voz-off de Nick.


In O Diabo (14.10.2014)

terça-feira, Outubro 07, 2014

Outubro é com Resnais


É sempre bom saber que vai começar um ciclo de homenagem ao realizador francês Alain Resnais (1922-2014), o cineasta do bom gosto à prova de bala (prova disso é que mantinha sua uma pequena casa-ilhota em plena baía do Morbihan…), e que o mesmo irá já decorrer durante o mês de Outubro, ainda que novamente na Cinemateca Portuguesa (já lá houve duas retrospectivas completas em 1981 e 1992) e ainda que, fruto dos nossos tempos difíceis, o ciclo abranja somente 15 da meia centena de filmes da sua autoria, entre curtas e longas-metragens.

Seja como for, quem nunca viu o cinema de Resnais e devia já ter visto, e quem viu mas esqueceu (e quem o vê era suposto nunca esquecer), terá agora a oportunidade de (re)ver algumas daquelas suas obras incontornáveis, em que a palavra e o rosto são dona e senhor da narrativa, como em «Hiroshima Meu Amor» (ai, a poesia da pele e daquele «deforma-me à tua imagem, a fim de que nenhum outro, depois de ti, compreenda a razão de tanto desejo»), «O Último Ano em Marienbad» (ai, aquele plano-sequência de homens e sombras fazendo de claro-escuro com fontes e sebes e mármores, pelos jardins dos arredores de Munique, que faz aqui da cidade termal checa) ou «Providence» (ai, aquele jogo do gato e do rato comandado pelo patriarca Gielgud); a par do irreverentíssimo díptico já mais recente, «Smoking» e «Não Smoking». Logo a abrir a homenagem, dar-se-ão a conhecer, em ante-estreia nacional, «Vocês Ainda Não Viram Nada» (2012) e «Amar, Beber e Cantar» (2014).

Resnais era um «senhor» e cada vez mais os há em menor número. Acerca da sua obra,The Guardian resumiu na perfeição a carreira do autor de «Muriel» (1963) aquando da sua morte em Março passado: «60 years of sensational cerebral film-making». Mas podia ter acrescentado que o cinema de Resnais é teatral mas fresco, imaginativo, jovem, estético, sempre com um bom gosto irrepreensível e que ele era insuperável a filmar cenas de amor (talvez as mais belas de todas sejam as de «A Guerra Acabou», filmadas em 1966), ou bien


In O Diabo (7.10.2014)

terça-feira, Setembro 30, 2014

Filmes em revista sumária #472


«Namoro à Espanhola», do madrileno Emilio Martínez-Lázar, é uma comédia em tom de paródia ligeira, e brejeira em muitos momentos, aos supostos clichés que os não bascos (e o título no original é muito mais sugestivo: «Ocho apelidos vascos»), mais propriamente, os andaluzes, terão acerca dos oriundos da “terra do euskara” e vice-versa. A receita para estas coisas já é velha mas parece que muito realizador continua a ter um forte sentido de oportunidade, sobretudo agora, no rescaldo do mega-sucesso francês «Rumo ao Norte» (Dany Boon, 2008), que está para durar (haverá algum por terras lusas para breve?), sendo que desta vez estamos perante o óbvio:

Trata-se de cavalgar êxito alheio - e o italiano Luca Miniero já o havia feito com «Bem-vindo ao Sul», em 2010 – sem lhe acrescentar mais nada do que apenas alguns condimentos. E, tal como em muitas outras ocasiões, estamos mais uma vez perante a prova provada de que o primado do original sobre a remake é mais do que certo, ainda que seja indiscutivelmente verdade que ninguém sairá mal disposto de «Namoro à Espanhola» pois o filme diverte de tão tonto que é e há cinco personagens impagáveis: o noivo incauto (Dani Rovira), a viúva picante (Carmen Machi), o padre Inazio (Aitor Mazo) e os colegas do botequim sevlhinao (Alberto López and Alfonso Sánchez).

Portanto, recomenda-se o espectador destemido para que se prepare para um chorrilho de lugares-comuns, situações forçadas ainda em maior número e muito exagero de parte a parte, mas também para uma fotografia bem bonita, algumas gargalhadas irreprimíveis e para aquele salero que só os espanhóis conseguem ter, sejam eles de onde forem.


In O Diabo (30.9.2014)

terça-feira, Setembro 23, 2014

Filmes em revista sumária #471


Nota prévia: não deixa de ser irónico que os braços-abertos com que Clint Eastwood – o realizador, não o actor – tem sido recebido pela crítica desde há uns anos a esta parte, se devam à inquestionável excelência de «Bird» (1988), um biopic musical, dramático e escuro como breu (não fosse ele sobre o saxofonista Charlie Parker), aquele que foi um soco no estômago em quem se habituara a ver apenas em Eastwood, erradamente, o “cowboy” solitário e o polícia-vigilante de uma América hiperconservadora (a mesma crítica que o ignorara, por sinal, noutro musical belo e desencantado de nome «A Última Canção», seis anos antes).

«Jersey Boys» é um musical à anos 50-60, que vale essencialmente por resgatar a história e as canções dos Four Seasons - mais estas do que aquela, que aqueloutra anda algo perdida no ziguezague (propositado?) de Eastwood entre o afinar do retrato de uma época (os valores tradicionais, os cenários, o vestuário, etc.) e a inevitável “charge” à máfia scorseseana -, da memória dos septuagenários que as viram, ouviram e dançaram em tempo real, pela voz inconfundível de Frankie Valli. Neste particular, o filme perde dramaticamente, por exemplo, com «Bobby Darin - O Amor é Eterno», de Kevin Spacey, pese haja momentos dramáticos muito bons - veja-se a cena de Valli com a filha, Francine, no snack-bar.

No resto, «Jersey Boys» aspirará a clássico mas não chega lá, e que não se culpe a caracterização horrorosa das personagens já idosas. Elogie-se, sim, Eastwood por ter sabido filmar as músicas e as canções sem recorrer aos tiques do videoclip, optando pela tradição (não, ele não é bota-de-elástico), e por aquele assombroso grand finale à «Weste Side Story», filmado em plano-sequência a partir dos quatro amigos entoando uma canção debaixo de um candeeiro de rua, como se estivessem em palco.

P.S. «Can't Take My Eyes Off You» é uma canção soberba, e não será por acaso que Christopher Walken a repete aqui depois de por ela ter passado em «O Caçador», de Cimino.


In O Diabo (23.9.2014)

terça-feira, Setembro 16, 2014

Filmes em revista sumária #470


Com quase meia centena de filmes no seu brilhante portfólio, é natural que desde para aí há já uns 15 anos a esta parte, mais coisa menos coisa, o quase octogenário Woody Allen (parece mentira, sim…), tenha engrenado a sua prolífica produção de um filme por ano numa espécie de piloto-automático (re)criativo, intercalando de vez em quando as suas comédias românticas, mais ou menos amalucadas e outro tanto filosóficas, por algumas inestimáveis pérolas cinematográficas de cariz profundamente dramático - olhe-se, por exemplo, aos memoráveis «Blue Jasmine» (2013) e «Match Point» (2005) -, produções em que ele não costuma ceder nem um só fotograma à comédia, ainda que não deixe de obedecer ao padrão da maior parte daquilo que o identifica junto do espectador, mesmo ao mais desatento, e que é a sua imagem de marca quase desde o começo:

Filmes com genéricos corridos a preto e branco e sempre no mesmo tipo de letra, acompanhados a jazz dos tempos áureos e com as fichas técnicas do costume (mais estrela menos estrela), sempre com uns diálogos de truz e de perder o fôlego, metralhados a um ritmo alucinante e embrulhados em “décors” de um bom gosto irrepreensível e, claro, com umas larachas muito bem apanhadas para apimentar a cena.

É aqui que se encaixa este «Magia ao Luar», a nova paródia de Woody à magia do abracadabra de sabor oriental e aos videntes de trazer por casa, treze anos depois do mal-amado «A Maldição do Escorpião de Jade», desta vem sem o próprio a protagonizá-lo mas com a estrela Colin Firth, o qual, contudo, mau grado todo o seu talento e toda a sua categoria, não consegue fazer levitar o filme para lá de uma mediania por demais evidente, nem para longe da Côte d’Azûr de encher o olho ou dos magníficos automóveis e do guarda-roupa de antanho.

É pena, tem pouca magia e sabe a pouco? É, tem, sabe. Mas, a bem dizer, Woody Allen é como aqueles amigos de longa data lá de casa, será sempre bem-vindo.


In O Diabo (16.9.2014)

terça-feira, Setembro 09, 2014

Filmes em revista sumária #469


A anos-luz daquela que terá sido a melhor adaptação de uma BD ao grande écran nas últimas décadas – a «Sin City» de 2005 –, esta sequela intitulada «Sin City: Mulher Fatal», novamente co-realizada por Roberto Rodriguez e Frank Miller (também autor da banda desenhada homónima), tinha tudo para dar certo mas não conseguiu, e não foi pelo poderoso efeito surpresa de há quase já 10 anos.

De facto, de pouco lhe valem agora as personagens escuras, eróticas, violentas, sórdidas de então, sempre tão aparentemente desgarradas entre si, ou alguns dos actores (Mickey Rourke, Jessica Alba, Powers Boothe, Bruce Willis) que tão bem deram corpo e fama ao primeiro filme.

A acção, a muita acção continua, tal como a narrativa se mantém assente naquela virtuosa montagem aos solavancos. Contudo, tudo parece repetição e não fora a nova fabulosa história de amor sado-masoquista à «film noir» dos anos 30-40, protagonizada pelo par de fazer faísca Eva Green & Josh Brolin e um tal de «chauffeur» de nome Manute (talvez a personagem mais bem conseguida de todas) obcecado pela patroa (alô «Sunset Boulevard…), e estávamos perante uma imensa desilusão, mau grado a sombra, o movimento e os fluxos sanguíneos que continuam a jorrar a branco e encarnado, ao sabor dos violentíssimos sopapos e arrancares de olhos de Marv (a personagem interpretada por Rourke é de facto imprescindível a esta BD) ou dos golpes de espada da acrobática Miho.

«Sin City: Mulher Fatal» só mesmo a espaços consegue não perder com o primeiro filme, apresentando buracos surpreendentes no enredo e histórias que nem chegam a colar, como sejam as das vinganças de Nancy e do jogador de póquer Johnny, ambas contra o terrível e sanguinário senador interpretado por um Powers Boothe sempre em forma. Além do mais, desta vez há muito menos efeito BD, muito menos grafismo e muito mais rostos reais. Não, de facto, sem a história da mulher-fatal (e que cena espectacular a da piscina, em novo aceno ao imortal filme de Wilder) e só restariam o estilo e Marv. Apenas distrai. É tudo e é pena.


In O Diabo (9.9.2014)

terça-feira, Setembro 02, 2014

Filmes em revista sumária #468


A premissa, melhor dito, o mito que serve de mote ao último filme do parisiense Luc Besson está longe de ser provado cientificamente, e disso já se sabia. No entanto, tal não implica que não continue a ser aliciante o facto de se pensar (quem disso for capaz…) que um homem mediano possa ter o seu cérebro apenas a 10% das reais capacidades (15%, se for um génio), e que uma eventual maximização da sua capacidade instalada (não confundir com Q.I.) será induzida pelo movimento de reprodução celular, correspondendo na prática a sermos uma espécie de demiurgo volátil e omnipresente, de consequências imprevisíveis para o comum dos mortais.

O ponto de partida de «Lucy» era, portando, engraçado e «cinematográfico», o pior foi mesmo calhar em sorte ao autor de «Subway», de quem há muito se espera mais do que acaba sempre por ir fazendo, filme após filme, mais estrela menos estrela, ainda que «Lucy» seja de longe o seu melhor filme desde «O 5º Elemento» (1997); talvez porque Scarlett Johansson é uma fora-de-série e tem realmente um toque de midas mesmo para coisas como a presente.

Esta espécie de «Nilkita» em versão cerebral começa muito bem, aliás, em tons de homenagem aos filmes de terror orientais (Choi “Old Boy” Min-shik faz a festa em todas as cenas em que entra), e a ideia da droga CPH4 ser assimilada pelo organismo e daí potenciar os neurónios de forma exponencial é um achado. Simplesmente, o filme cedo começa a derrapar numa série de piruetas e piroseiras narrativas e visuais (estas muito aquém do que é habitual na Industrial, Light & Magic – as cenas com a macaca Lucy são de rir), de que a publicidade ao novel Peugeot 308 é sintomática. Enquanto «trhriller» é pouco mais do que medíocre, mas a banda sonora de «Lucy», essa, é fabulosa, pelo que merece a pena ficar-se até que o genérico final se finde.

Pergunta da praxe: mas afinal, o nosso cérebro está a 10% ou nem isso? Pois. Continuará o mistério e o quebra-cabeças, para quem as tiver, obviamente.


In O Diabo (2.9.2014)

quarta-feira, Agosto 27, 2014

E pronto, começa hoje:


Sem mim mas com Antoine Doinel...

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terça-feira, Agosto 26, 2014

Filmes em revista sumária #467


Filmar poesia não é fácil, mais fácil é filmar poetas em bloqueio, mais ainda filmar algo de forma poética, e indubitavelmente mais ainda será fazê-lo aparentando sê-lo (poeta), decalcando deste ou daquele realizador reconhecidamente poético, a sua lente, a sua marca, a sua capacidade de transpor para a tela os escritos e os sentimentos de outros (ou do próprio) que nos transportam para o belo.

Vem isto a propósito de «Tar», escrito e realizado por 12 alunos de James Franco (também produtor…) da Universidade de Nova Iorque, que versa sobre uma colectânea homónima de12 poemas da autoria do premiadíssimo poeta norte-americano Charles Kenneth Williams, tentando reter para a posteridade cinéfila vários episódios e memórias marcantes familiares, amorosos e criativos da sua infância, adolescência e maioridade, dos anos 40 aos 80 do século XX.

Agradece-se o entusiasmo de James Franco em dar visibilidade ao poeta e aos seus, dele, alunos, que, graças a ele (e, já agora, à presença de nomes como Jessica Chastain e Mila Kunis no elenco) poderão lançar-se a novos e providenciais projectos, mas acontece, porém, que o filme parece demasiado “copy-paste” da estética e da narrativa de Terrence Malick, por exemplo. Daí que seja ainda cedo para retirar conclusões acerca do empenho com que o senhor prof. Franco decidiu patrocinar os seus alunos e se o mesmo justificava ou não, ou se os seus meninos não terão apenas usado e abusado do Instagram em testes de final de curso.

O melhor deste filme escrito e realizado a 24 (não serão antes 25?) mãos é mesmo a poesia em fragmentos C.K. Williams e, claro, o rosto híper-fotogénico de Jessica Chastain (as melhores cenas são com ela). Não é pouco, convenhamos.

P.S. É favor não confundir «Tar» com Béla Tarr.

In O Diabo (26.8.2014)

segunda-feira, Agosto 25, 2014

Obituário: Richard Attenborough (1923-2014)


Até ontem havia dois enormes manos chamados Attenborough (Richard e David) e agora já só há um. Desapareceu Pinkie Brown, o pequeno gangster de «Brighton Rock» (1947), desapareceu o realizador de «Gandhi» (1983) e, sobretudo, desapareceu uma verdadeira instituição da Velha Albion.

sexta-feira, Agosto 22, 2014

A lista de Scorsese


Dos 39 filmes de que o Público tão oportunamente contou a história, há uns quantos que só mesmo Marty poderá explicar a razão de ali estarem, mas gosto imenso que tenha os três primeiros que tem.

terça-feira, Agosto 19, 2014

Filmes em revista sumária #466


A Singapura de «Ilo, Ilo», do estreante Anthony Chen, não tem um átomo que seja daquela cidade-estado estereotipada, modelo, mesmo, que todos nos dizem ser a cidade mais cara do mundo, centro financeiro de referência, uma das mais evoluídas dos nossos tempos e onde é possível ter um PIB per capita de fazer inveja a muito 1º e 2º mundo e impossível encontrar-se um papel que seja no chão das suas «super-avenidas».

Não, a Singapura retratada neste dramático 100% oriental é uma cidade pouco mais que de subúrbio, onde os blocos habitacionais se confundem uns com os outros e a classe média aqui protagonista vive em cubículos o drama dos despedimentos sem aviso prévio, para logo ter as vidas viradas do avesso num abrir e fechar de olhos: um retrato do drama por que passou praticamente toda a Ásia desenvolvida em finais dos anos 90, aquando da crise financeira sobejamente noticiada ao tempo.

Em «Ilo, Ilo», aliás, muitas das peripécias vividas aqui pelas personagens de pai, mãe, filho e criada (filipina e chamada Teresa, claro) são como contadas na primeira pessoa, pois serão fruto da própria experiência pessoal vivida pelo realizador, enquanto criança.

O problema de «Ilo, Ilo», contudo, é que se puxarmos um pouco pela memória, logo começaremos a rever mentalmente vários filmes parecidos com «Ilo, Ilo», a maior parte deles orientais, e alguns deles com situações e peripécias idênticas. Isso faz com que «Ilo, Ilo» seja de menosprezar? Claro que não. Ou de que não vale a pena falar-se do cinema feito em Singapura, e que um dia ele será capaz de ombrear com o cinema sul-coreano, por exemplo? Também não, mas ainda lhe falta muito para lá chegar.


In O Diabo (19.8.2014)

quinta-feira, Agosto 14, 2014

Obituário: Lauren Bacall (1924-2014)


Bacall só há uma e não por ter sido a primeira "respondona" do grande écran, que não o foi (antes dela já Mae West e Jean Harlow o tinham sido e muito mais, até), ou pelo arcar das suas sobrancelhas, nem por ser extremamente bela, ou que tivesse uma voz inconfundível, ou por ser insinuante em cada plano de câmara. Ou que fosse uma actriz particularmente dotada, muito menos que tivesse tido mais do que um punhado de papéis, melhor dito, cenas memoráveis. Mas foi porque teve isto tudo ao mesmo tempo. Razão teve a mulher de Howard Hawks em querer que ele a contratasse, por isso, obrigado, Nancy Hawks!

Filmes em revista sumária #465


«Um Homem Muito Procurado», do holandês Anton Corbijn, ficará para a história da 7ª Arte não como um excepcional filme de espionagem (está longe de o ser) ou a mais bem conseguida adaptação de um daqueles prodígios de narrativa emocionante, habitualmente saídos da mão hábil de Le Carré (não estamos perante nem uma coisa nem outra), mas antes, e apenas, como o derradeiro filme do malogrado actor Philip Seymour Hoffman, cujo trágico e recente desaparecimento continua por aceitar.

Com efeito, o seu carisma é tanto que, mesmo sem grande esforço, como aqui (quase que apetece dizer que o actor se representou a si próprio…), Seymour Hoffman é o centro das atenções deste “puzzle” sem garra (a que George Smiley chamaria um figo…), esmagando toda e qualquer cena das que entra e preenchem as excessivas duas horas de duração do filme.

A contemporaneidade da história (muçulmanos, chechenos, etc.) já limitava à partida o “campo de acção” do filme, por isso não é de estranhar que apenas na parte final do mesmo o espectador seja como que acordado face ao volte-face da história, onde, afinal, são todos bonzinhos, ainda que uns mais do que outros, e a grande conclusão parece ser a de que já não há espiões como dantes.

As personagens representadas por Robin Wright e Rachel McAdams andam um pouco perdidas nisto tudo, e Willem Dafoe deve ter gostado de fazer de banqueiro. Em relação a Anton Corbijin, não é por nada, mas já com «O Americano», em 2010, ele prometera mais do que depois veio efectivamente a conseguir; mesmo assim, contudo, continua a merecer o nosso benefício da dúvida, U2, Depeche Mode, Joy Division, Ultravox e Nirvana … “oblige”.


In O Diabo (12.8.2014)

quarta-feira, Agosto 06, 2014

Filmes em revista sumária #464


O belíssimo «Ida» marca o regresso de Pawel Pawlikowski aos nossos cinemas e não podia marcá-lo de forma melhor, num filme em que o silêncio vale ouro e não é preciso dizer muito mais, e o preto e branco é uma palete de matizes que condiz a preceito com o estado de alma de um povo, o polaco, do pós-guerra, marcado indelevelmente por um passado ainda recente em que a sua consciência vincademente católica precisa de ajustar contas com a forma como tratou o judaísmo por alturas da 2ª Guerra Mundial.

«Ida» retrata de forma visceralmente comovente os sacrifícios de uma jovem noviça, cuja Fé é posta à prova em vésperas de professar votos; primeiro, lidando com os demónios da sua própria tragédia familiar, depois, provando das experiências de vida de que há-de abdicar inapelavelmente quando professar aqueles.

Um filme que, face ao niilismo generalizado, só podia ser polaco e que lembra imediatamente Bergman, claro, mas também, e muito, o cinema em estado puro de um David W. Griffith, no sufoco dramático em que as duas personagens femininas se desenvolvem (curiosamente as actrizes que interpretam os dois papéis centrais chamam-se Agata e Wanda, e a tia, protagonizada por Agata Kulesza é toda um papelão digno de uma Magnani…), na carga emotiva, épica, mesmo, da história e nos planos soberbamente recortados, tirados a regra e esquadro, assentes numa fotografia tão prodigiosa quanto pouco convencional (vejam-se, por exemplo, as vezes em que os rostos das personagens saem deliberadamente da objectiva, desequilibrando o centro do enfoque daquela – magnífico!).

Um filme que parece querer dizer que, para a nação polaca, Coltrane e o “jazz” norte-americano levaram a melhor sobre a 41ª de Mozart e o «Invoco-Te, Senhor, Jesus Cristo», de J.S. Bach, mas onde, no fim, para Ida, “apenas” lhe permitirão afirmar resoluta: estou pronta, Senhor.


In O Diabo (5.8.2014)

quinta-feira, Julho 31, 2014

Filmes em revista sumária #463


Pois é, os dotes argumentistas de Paul Haggis parecem não ser já o que foram em «Colisão» (2004) ou em «No Vale de Elah» (2007), por exemplo, filmes em que o canadiano deu uma lufada de ar fresco ao panorama cinematográfico produzido além norte-atlântico, graças, sobretudo, a argumentos poderosos e originalíssimos, consubstanciados em filmes-matriz, mosaicos onde várias histórias aparentemente desconexas entre si se cruzavam, algures a meio da intriga, desenlaçando-se num final portentoso, não sem que pelo meio não houvesse alguma forma de «twist», mas sem nunca ludibriar ou manietar o espectador - muito na linha, aliás, do que Paul-Thomas Anderson produzira uma década antes.

Desta vez a coisa repete-se – são três histórias de amor envolvendo três casais em três locais distantes (Nova Iorque, Paris e Roma) – mas não cola, decididamente, ou, pelo menos, não cola como se esperava que colasse. Talvez o problema de «Na Terceira Pessoa» esteja em que Haggis, que possa estar com o mesmo problema da personagem central, interpretada por Liam Neeson (novamente tão voluntarioso quão abrutalhado), i.e., em crise de inspiração, ou, quem sabe se do lado de cá se colocou a Haggis uma fasquia demasiado alta.

Seja como for, «Na Terceira Pessoa», apesar de parecer muito mais adequado a um imaginário televisivo, não é de modo nenhum um filme despiciendo, antes pelo contrário: os diálogos vivos e certeiros (sobretudo aqueles do jogo do gato e do rato entre as personagens de Neeson e Olivia Wilde, uma dupla de estalo - que remetem para Hepburn & Grant), uma montagem eficaz e um punhado de belas interpretações (Wilde, Bello e Brody fazem o que querem das cenas em que entram), tornam este filme sobre confiança e traição – «com a verdade me enganas» - e um imenso sentimento de culpa, num produto final simpático e de digestão pausada. Se é de manter a confiança em Haggis e mandar-lhe rosas brancas à cabine? Sim, claro.


In O Diabo (29.7.2014)

terça-feira, Julho 22, 2014

Filmes em revista sumária #462


Desengane-se quem for ver «O Teorema Zero» a pensar nalguma sequela, ou actualização, do já mítico «Monty Python, O Sentido da Vida» (1983). É que, se à partida havia uma dupla coincidência entre ambos filmes – os realizadores, Gilliam e Jones, partilham do mesmo nome próprio, e o dito sentido é também agora o centro das atenções neste filme de Terry Gilliam- a verdade é que apenas a coincidência de nomes pode sustentar tal ilusão.

«O Teorema Zero» é um filme claramente de Gilliam e de mais ninguém. E se o autor daqueles portentosos intercalares, feitos de colagens animadas mais ou menos toscas, que marcaram de forma corrosiva e indelével a saudosa série «Monty Pyhton, Flying Circus», conta já com 73 anos, ele mantém intacta a sua irreverência, embora, naturalmente, a tendência seja para se plagiar a si próprio, encalhando nalguns dos detalhes que marcaram os seus filmes mais notórios (a careca de Waltz é a de Willis, em «Os 12 Macacos», a rapariga da «pizza» é a dos telegramas cantados de «Brazil», os tubos para «download», idem, etc.) – e demos graças por ter enterrado o psicadelismo de «Fear and Loathing in Vegas».

Ao invés das partes gagas que glosavam, com apurado sentido humor, o tal «sentido da vida» em 1983, a coisa agora é por séria e simbólica, entre sagrado e profano – o protagonista, Qohen Leth, vive numa antiga igreja e dorme nos tubos do órgão, voz de Deus, e na cabeça de Cristo está uma câmara de videovigilância, ligada ao «patrão» de Leth -, esotérica, pessimista: só mergulhando no vórtice negro (o poço, por contraponto à luz) do seu desafio pessoal (revisitação do anjo de «Brazil»?), ele alcançará o sentido da vida, depois de conhecer, enfim, sacrificar, o amor real, proporcionado cibernauticamente, em visão paradisíaca a dois.

Lição para as redes sociais e para o vício do dedilhar frenético das teclas dos nossos dias? Sim. Há poesia no filme? Sim. Todos nós esperamos por um telefonema que nos explique o sentido da vida? Claro. A equação que nos move é resolúvel? Talvez. Acaba mal, pois acaba, é inevitável.

Já «nos» íamos esquecendo: Christoph Waltz é um actor superlativo; encontrado tardiamente (Leth também), mas ainda a tempo, uf. Tilda Swinton está um deslumbramento, virtual.


In O Diabo (22.7.2014)

quarta-feira, Julho 16, 2014

Filmes em revista sumária #461


Intenso, intimista, hipersensível, crú, arrebatador e profundamente dramático. Assim se resume «Violette», o novo filme de Martin Provost (não confundir com Prévost…), que depois de ter biografado a pintora Séraphine de Senlis, realiza este «biopic» sobre Violette Leduc (não confundir com Viollet-le-Duc…), a escritora sensacionalista dos idos do pós-guerra de 1939-45, que acumulava à condição de mulher sexual e socialmente reprimida, feita contrabandista, para sobreviver, a de romancista frenética (na primeira pessoa) em contínuo turbilhão criativo, e a que a protecção de Simone de Beauvoir haveria de conseguir consagrar anos mais tarde, à custa de muita tenacidade, sofrimento e reveses.

Visualmente soberbo, graças ao apurado sentido estético de Yves Cape (veja-se o belíssimo tratamento do claro-escuro, por exemplo), e com uma encenação tipicamente francesa (academismo? sim, e daí?), no tratamento dos cenários e da reconstituição de época (a todos os níveis), «Violette» assenta ainda em duas performances soberbas: a de Emmanuelle Devos, na pele da boçal, desiludida e desconcertante protagonista (ele é todo um frémito quando, raivosa, atira à cara da mãe: «tu tiveste-me!»), e a de Sandrine Kiberlain, na da celebérrima feminista autora de «Os Mandarins». Nelas e num punhado de secundários irrepreensíveis em outras tantas personagens riquíssimas (a mãe, o perfumista, etc.).

A cena, rodada em «travelling» ao longo de um muro de pedra e de uma correnteza de árvores, sob o céu azul da Provença, em que vemos Violette solta e decidida a viver pela escrita, é inolvidável. Tal como a frase (em francês, é obrigatório): «Je m'en irai comme je suis arrivée. Intacte, chargée de mes défauts qui m'ont torturée. J'aurais voulu naître statue, je suis une limace sous mon fumier».

NB: E que tal alguém reeditar em português as obras de Violette? É que só nos alfarrábios se pode alguma das velhinhas edições da saudosa Portugália.


In O Diabo (15.7.2014)

terça-feira, Julho 08, 2014

Filmes em revista sumária #460


Reduzir-se «Locke» ao espantoso «one man show» que Tom Hardy consegue neste filme de estreia de Steven Knight, é injusto, desde logo para com a excelência do argumento e da realização – prender-se o espectador do princípio ao fim da maneira que o realizador consegue neste filme minimalista, de modo tão original e com tamanho bom gosto, é obra (o recurso a uma câmara hiperactiva e imaginativa talvez tenha sido a chave do sucesso); ingrato, uma vez que o realizador dá uma tremenda lição de como fazer muito bom cinema sem recorrer a exorbitâncias e extravagâncias, e redutor, pois o título do filme não está lá por acaso, a ideia é mesmo remeter o espectador mais atento para o postulado do filósofo homónimo: o de que à nascença somos um conjunto vazio, nada, e que só à medida que vamos tomando consciência e ganhando experiência nos vamos moldando, por nós próprios, como seres humanos – daí a vontade férrea do protagonista em não querer ser igual a seu pai.

Além disso, se Tom Hardy é omnipresente e é (tem aqui uma interpretação riquíssima, enquanto Ivan Locke, usando de uma paleta dramática de expressões e impressões, de uma força impressionante), o filme não seria o mesmo se não tivesse o “apoio” da plataforma de comunicação para distâncias curtas (são cerca de 200km entre Birmingham e Londres) denominada Bluetooth (passe a publicidade), que lhe (nos) permite a interacção com uma série de vozes, também elas de uma tal tensão dramática que rapidamente se transformam em personagens de carne e osso, com alma.

Moral da história: uma decisão mal tomada (no caso, «a diferença entre nunca e uma vez é a diferença entre bem e mal») pode implicar alterações terríveis nas nossas vidas. Irreversíveis? Nem por isso.


In O Diabo (8.7.2014)

terça-feira, Julho 01, 2014

Filmes em revista sumária #459


Esta premiada co-produção hispano-canadiana chamada «O Homem Duplicado» (ibero-canadiana, se pensarmos que a mesma tem por base o título homónimo do português José Saramago), com argumento assinado pelo espanhol Javier Gullón e realização do canadiano Denis Villeneuve (já repararam quantos nascidos no país da folha de ácer têm este apelido?), é realmente um enigma perturbador, do primeiro ao último fotograma, fazendo jus aos escritos de alguns outros gigantes das letras, Dostoievsky e William S. Burroughs, por exemplo, onde a dupla de autores terá ido «beber», mas também ao cinema abundantemente alucinado de Cronenberg, também ele canadiano, por acaso, ou não.

À partida, a história parece banalíssima: um homem tem uma vida dupla, que, inocentemente, ignora, perdido que anda no meio das suas aulas de história e teoria política para universitário consumir, mirtilos gelados e «shows» eróticos secretos à «Eyes Wide Shut», mas que se torna gradualmente labiríntica e demente a partir do momento em que, na última daquelas cerimónias, uma tarântula é esmagado sob o salto-alto da «stripper» de serviço.

Contudo, é só aparência, rapidamente nos deparamos com algo de mais profundo: um imenso drama psicológico, uma teia alegórica (aranha-mulher-mãe), que cada qual interpretará ao seu bel-prazer, que enreda e absorve a personagem central (interpretada por um Jake Gyllenhaal sempre impressionante) de tal maneira que nem à bruta parece romper-se, e não rompe, de facto – é numa deixa da mãe (evidentíssimo, aliás, o piscar de olhos a «If I Were a Spider», da série Green Porno, da própria Isabella Rosselini) que reside a chave para se deslindar onde está a realidade.

Um filme que não dirá muito aos terra-a-terra, mas que é bom quebra-cabeças para quem gosta de conversar e de reflectir sobre o que acaba de ver. Em bom rigor, não há como escapar da aranha.


In O Diabo (1.7.2014)

quarta-feira, Junho 25, 2014

Obituário: Eli Wallach (1915-2014)


Morreu um dos maiores actores de todos os tempos e um dos que mais vezes se cruzou connosco no cinema e na tv, a maior parte das vezes em papéis inesquecíveis, a que não são alheios os míticos Actors Studio. Está superlativo ao lado da amiga Marilyn em «The Misfits» (1961) e como ele já não se fazem. Acerca dos seus habituais papéis de vilão, disse: I always end up being the evil one, and I wouldn't hurt a fly. Acredito.

terça-feira, Junho 24, 2014

Filmes em revista sumária #458


Mais do que assistirmos à paixão melancólica entre Adão e Eva, o par de vampiros diletantes e eruditos que protagoniza este melodramático «underground» intitulado «Só os Amantes Sobrevivem», o que interessa reter para a posteridade é que, afinal, os escritos do velho bardo de Stratford-upon-Avon não foram escritos por este mas sim por um vampiro (!) de nome Campbell, interpretado no filme pelo sempre superlativo John Hurt.

Mais, ainda, a realidade histórica que nos tem sido administrada ao longo de décadas já não é o que era, passou a ficção virtual, senão veja-se: os vampiros são, eles sim, os responsáveis pela evolução do conhecimento e da espécie humana. As descobertas científicas, a poesia de génio, a música, etc. (e o futebol?), que originaram carreiras e patentes inolvidáveis foram, antes, obra de vampiros (supõe-se que de alguns eleitos…), e não de quem nos dizem ser nos calhamaços enciclopédicos; esses mais não foram (e continuam a ser) que «zombies». É o mundo às avessas? Sim, mas é divertido.

Pelo meio daquele visual gótico irrepreensível, de influência claramente germânica, e daquela «música de enterro» (belíssima, aliás), os humanos são tão «zombies» que eles próprios se têm encarregado de contaminar das mais variadas formas (drogas, poluição, químicos, tráfico, o abandono de cidades, fábricas, cinemas…) a própria espécie, pela incontinente conspurcação do precioso líquido vermelho que lhes (nos) corre nas veias e tonifica os vampiros, acabando antes por os matar, eles a quem só uma estaca de madeira cravada no coração ou um raio de Sol matava.

Paradoxalmente, contudo, está na inocência dos humanos ainda puros (por inerência no Amor), o milagre de garantir «ad aeternum» a sobrevivência do génio vampiresco.

O rosto andrógino de Tilda Swinton ajuda ao festim de melancolia em que o filme se desenrola, os «décors» também, mas o grande trunfo do filme de Jim Jarmush (ou será de Jozef van Wissem?) é mesmo a sua banda sonora, pelo que prateleira com ela, já.


In O Diabo (24.6.2014)

terça-feira, Junho 17, 2014

Filmes em revista sumária #457


Que o cinema indiano tem especial queda para o melodrama, que mete grandes histórias de amor, regra geral dificultado por entrave familiar ou social, mais contradições cidade-campo, etc.; disso ninguém nunca teve dúvidas, e bastaria uma espreitadela aos clássicos de Satyajit Ray (mais inspiração, menos inspiração nos escritos do laureado Tagore) para quem disso duvidasse tirar a efectiva prova-dos-nove, e as coloridas e sempre bem engalanadas super-produções de Bollywood estão aí para o provar, mais ou menos «ad nauseam».

Eis, contudo, que, desse imaginário digno de Taj Mahal, aparece agora «A Lancheira», vinda directamente da grande Bombaim, dessa imensa metrópole de comboios apinhados e engarrafamentos vários, ainda que com certo «cheirinho» à chancela do Canal ARTE.

A marmita, que dá título ao filme e que se extravia a certa altura (culpa de Parvati?), no meio de uma sofisticada logística que suporta o refinadíssimo serviço de entregas, Dabawallahs, e que Harvard quer imitar; serve de cupido a quem parecia já se ter resignado a nunca mais reencontrar o Amor.

A marmita; na verdade um conjunto de pequenas marmitas metálicas, encavalitadas umas nas outras, mas recheadas de um manjar capaz de estoirar com toda e qualquer produtividade (conceito em oposição clara ao das nipónicas e espartanas «bento»), mais não é do que o tal «comboio errado que nos pode levar ao destino certo».

A genialidade deste filme reside tanto na sua simplicidade como no modo como nos convence que o mundo, apesar de tudo, não está perdido, e que no meio da globalização e das novas tecnologias, no que toca, pelo menos, ao serviço de reclamações de certa repartição, e, pelo mais, ao Amor; ainda há espaço, tempo e modo para a missiva em papel. Tudo com humor e sensibilidade. Convenhamos que não é pouco.

O estreante Ritesh Batra, argumentista e realizador, está de parabéns, tal como o estão Irrfan Khan e Nimrat Kaur (no amor por correspondência), e os secundários Nawazuddin Siddiqui (ele rouba todas as cenas em que entra) e a voz da Tia, vizinha de cima de Illa.


In O Diabo (17.6.2014)

segunda-feira, Junho 09, 2014

Filmes em revista sumária #456


Que o diga o protagonista de «Ruína Azul», aquelo pobre e tristíssimo vadio (anti-herói clássico) que depois de vadiar junto à praia em Delaware durante vários anos, vasculhando o lixo e pernoitando num antigo Pontiac azul (razão do título do filme) aparentemente estropiado, enceta uma vingança de truz, numa autêntica caça de espera contra quem lhe matou os pais e o tornou despojado de afectos, agora acabadinho de sair da prisão.

A vingança assume-se neste magnífico «thriller», escrito e realizado por um surpreendente Jeremy Saulnier, como o centro da narrativa, lembrando, desde logo, os manos Coen de «Sangue por Sangue» (1984) mas sobretudo aquelas matanças em que costumavam resultar as guerras entre famílias (vulgo clãs) da América profunda, entre entrincheirados em fardos de palha e afins, atirando tiros e insultos por todo o lado, e com que Disney costumava parodiar nos seus desenhos animados de boa memória, hoje, quiçá, politicamente incorrectos. Uma vingança que no fim se revela inglória, claro, mas que assume contornos de matança e onde o sangue é coisa que não falta.

A história de «Ruína Azul» não traz nada verdadeiramente de novo mas há qualquer coisa no filme que nos prende do princípio ao fim. Compreende-se o sucesso rápido em que este «indie», aparentemente barato, rodado com actores desconhecidos, se tornou, ao qual a fotografia e o ritmo a que tudo se desenrola ajudam e muito.

A melhor cena (e a mais violenta também), quiçá plagiada em «Henry: A Sombra de Um Assassino», de 1986, é a da casa de banho, onde parece que também nós estamos à espera, por detrás da porta, arriscando sermos descobertos antes de agirmos, prontos para espetar com força aquela faca dê lá por onde der.

NB: A ideia de se poder trocar latas e garrafas de plástico usadas por senhas convertíveis em produtos de supermercado ou outros, seria muito, mas muito bem-vinda por cá. Fica a ideia.


In O Diabo (9.6.2014)
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sexta-feira, Junho 06, 2014

Aqui não houve marcianos, foi no Dia-D:


A emissão de «Orson Welles Almanac – The D-Day program of 70 year ago ... one of finest wartime broadcasts. Starring Agnes Moorehead as a mother reading a letter to her son. Almanac was sponsored by Mobilgas and Mobiloil. The 30-minute variety program ran from January 26 through July 19, 1944.». Ouça, AQUI.


Fonte: Paulo Trancoso

terça-feira, Maio 27, 2014

Filmes em revista sumária #455


No rescaldo das duas horas de duração do «Godzilla» de Gareth Ewards (que até tinha começado menos mal quando realizou «Monsters-Zona Interdita», em 2010), a grande conclusão é: talvez tivesse sido melhor terem-se ficado pelas miniaturas da praxe ou pela dimensão única da BD, em vez de insistirem em filmá-lo, muito menos nas malfadas 3-D, essa praga que ultimamente se vai propagando a cada «blockbuster» que estreia.

No original japonês, de 1954, estávamos perante uma das muitas aventuras terríficas, totalmente ingénuas, do pós-guerra, ainda que essa fosse munida da indispensável mensagem subliminar, mas que na prática serviam apenas para divertir o público com um sem-número de répteis e outros animalescos mais ou menos monstruosos, que, em resultado de mil e uma radiações e intervenções do homem, destruíam cidades e matavam magotes de gente, locomovendo-se e gesticulando ao sabor de uns efeitos especiais tão artesanais quanto genuinamente ingénuos.

Este outro, agora estreado entre nós, diz respeito à narrativa ulterior sobre o celebérrimo mostrengo, fruto de uma abordagem sentimentalona e parva, em que personagem passa a ser-nos apresentada como o garante último, calcule-se, do equilíbrio entre o bem e o mal no planeta Terra.

Nesse propósito, vai de o confrontar com duas outras terríveis máquinas de extermínio, mais «metálicas», réplicas baratuchas dos «aliens» de boa memória, de Ridley Scott e James Cameron; vindas não se percebe muito bem de onde, e de as fazer protagonizar às três um confronto inenarrável e hilariante, em que o mau gosto se mistura com a pirotecnia atroz, tão gigantes quanto o gigantesco desperdício de dinheiro dos estúdios (e do público), abusando de uns efeitos especiais mais que manhosos (nada artesanais …) e de um punhado de actores que mais valia tivessem ficado em casa (Binoche, Watanabe, Elizabeth Olsen, Bryan Cranston, David Strathaim? por favor!).

No que a terríveis bichos diz respeito, o título de rei da sétima arte, esse, continua bem entregue ao Kong criado e realizado pela imortal dupla Cooper & Schoedsack, a (re)ver, sempre.


In O Diabo (27.5.2014)

terça-feira, Maio 20, 2014

Filmes em revista sumária #454


«Sob a Pele», de Jonathan Glazer, é uma parábola sobre a estirpe humana (onde, apesar de tudo, ainda é possível encontrar a virtude no meio de tanto negrume, nem que seja aos olhos de um extraterrestre); rodada numa Escócia sempre propícia a cenários tão belos quanto desoladores (veja-se aquele plano soberbo, à pincel de Caspar David Friedrich, do motard no meio da neve), mas o mistério (se é que o há) mantém-se por decifrar no meio daquela viscosidade negra, parecida a jazida de petróleo, maléfica e alienígena, onde se vão afogando os humanos seduzidos, hipnotizados e capturados, cirúrgica e metodicamente, por uma Scarlett do outro mundo, literalmente.

Personagens sós, sugadas num esfregar de olhos, reduzidas a papiro epidérmico, as pobres, cuja matéria se vai esvaindo inconscientemente numa viscosidade sanguínea, que corre como lava, não se sabe muito bem para onde (lembra a cena do sangue a jorrar junto ao elevador do Hotel Overlook, de Kubrick). Expurgo humano, sublimação da alma? É que ao contrário de «Predador» (1987), por exemplo, aqui nunca se chega a saber o porquê da caçada, o que, bem vistas as coisas, talvez nem interesse para o caso.

O problema é que esta mulher fatal, esta caçadora implacável, vira presa ao tornar-se humana no sentir e na emoção, no toque da pele, na compaixão por aquele terrivelmente deformado (não por acaso esta é a única presa a ver a sua predadora completamente nua), até não lhe restar alternativa que não seja entregar-se ao destino.

Resumindo, «Sob a Pele» é um filme extraordinário na verdadeira acepção da palavra, propício a opiniões antagónicas, mesmo inflamadas; que tem na fotografia, nos efeitos de som e na música inquietante (que lembra Ligeti mas também a que Rolfe Kent compôs para a série televisiva «Dexter») três elementos de truz. E Scarlett está assombrosa. Abençoado o filme que põe o espectador a pensar no que acaba de ver. Mas Kubrick só há um, o demiurgo de St. Albans e mais nenhum.


In O Diabo (20.5.2014)

terça-feira, Maio 13, 2014

Filmes em revista sumária #453


Parece que é desta que o sobrinho de Coppola, perdão, Nicholas Cage, volta a ser considerado pelo público e pela crítica, tal o rol de interpretações cabotinas que o actor oscarizado por «Morrer em Las Vegas» (1995), vinha a acumular desde há uma boa vintena de anos, em dezenas de papéis miseráveis e outros tantos filmes abaixo de cão. Oxalá.

Contudo, em «Joe», de David Gordon Green, ele divide o protagonismo com o jovem Tye Sheridan (do brutal «Mud», de Jeff Nichols; filme, aliás, com que «Joe» pretende rivalizar mas sem sucesso) e, sobretudo, com Gary Poulter, um sem-abrigo real que mete no bolso do seu alcoólico, arrogante e violentíssimo … sem-abrigo de nome Wade, todas as cenas em que aparece. Com efeito, será difícil esquecermos o carisma e o talento natural de Poulter (que morreria antes da estreia do filme, em circunstância digna de «Joe») e o seu ar alucinado, o olhar esgazeado, a orelha cortada, os dentes partidos e aquela cena fabulosa em que mata à pancada um seu camarada de perdição, para depois lhe encomendar a alma ao Criador.

«Joe» é um filme sobre a família (sobre aquela que podia ter sido e não foi) e sobre a amizade, aparentemente improvável (adulto-adolescente, preso-polícia, branco-negro, cliente-prostituta), mas também sobre a bestialidade que habita o homem e como no fim a humanidade acaba por se lhe sobrepor (valha-nos isso). É também um filme sobre a redenção e os ímpios caminhos para a conseguir (Joe tem todos os vícios e mais alguns, a começar pelo de passar as noites a olhar bovinamente para o televisor).

Pelo meio há personagens riquíssimas (e outras sem jeito como aquele sujeito das cicatrizes, que nunca mais morre…) de uma América profunda, que os indie tanto gostam de remexer, e algumas mensagens curiosas: a rivalidade canina que descamba em luta sanguinolenta, as árvores que se matam e que se plantam, a ponte entre duas realidades; a mulher do carro que pára ao lado no semáforo, o afiar dos paus em simultâneo, de Joe e Gary. Dará para Cage se redimir? Veremos.


In O Diabo (13.5.2014)

segunda-feira, Maio 12, 2014

O tempo voa ...et voilà!

quinta-feira, Maio 08, 2014

Filmes em revista sumária #452


«Laços de Sangue» é mais uma das recentes revisitações dos policiais dos anos 70, desta vez em «remake» americana de «polar» homónimo francês, acrescido de dupla curiosidade: não só era suposto ser ao contrário que isto acontecesse, como o realizador, Guillaume Canet (autor do consagrado «Pequenas Mentiras Entre Amigos»), é o mesmo de ambas! Apesar da seriedade da realização e da escrupulosa reconstituição daqueles saudosos tempos, e pese embora o elenco de luxo (ah, Caan, ah, Caan…), o filme não engrena como era suposto engrenar e a coisa vai-se passando mais ou menos de forma fastidiosa, mais música menos música, mais tiro menos tiro, mais bocejo menos bocejo. A gente bem quer que ande mas …nada. Clive Owen é um pouco canastrão e o sotaque não ajuda, e da Cotillard não se percebe muito bem a razão de ali estar, coitadinha. O desenlace final vale por quase todo o filme, e Siegel ou Frankenheimer fariam bem melhor do que isto e com uma perna às costas.

quarta-feira, Maio 07, 2014

A partir de amanhã, Scarlett suga-nos ao tutano:


terça-feira, Maio 06, 2014

Filmes em revista sumária #451


Sobre a célebre ordem dada por Hitler (Himmler?) ao governador militar de Paris no princípio do fim da Ocupação, que dá título à presente crónica, pensava-se que já se havia escrito e filmado o definitivo, desde logo pelas peripécias rocambolescas e suculentas de Porta e seus camaradas, no livro homónimo do dinamarquês Sven Hassel, ou no relativamente mastodôntico mas bastante bonito «Paris Já Está a Arder?», de René Clément, feito em 1966 com um batalhão de estrelas (o argumento era de Gore Vidal e F.F. Coppola!). E que por força disso, este «Diplomacia», do alemão Volker Schlöndorff, estaria condenado ao ostracismo. Contas furadas:

Não só a história à volta da ordem-que-não-foi-acatada continua atractiva e fonte de inspiração (assim haja voluntários nos tempos que correm), como do autor de «O Tambor» se espera sempre rigor e sobriedade, uma direcção de actores apurada e uma gestão do tempo imaculada, resumindo: filmes onde tudo está no sítio certo e todos sabem onde pisar e o que dizer, quando e de que forma. Dramaturgia filmada? Talvez, e daí?

Resumindo, ninguém sairá defraudado com esta nova abordagem ao criminoso plano de fazer explodir a Paris das luzes, como manobra de retirada militar. Além do mais, «Diplomacia» é um intensíssimo mano-a-mano entre dois veteranos do cinema francês, Niels Arestrup (meio dinamarquês…) e o resnaisiano André Dussolier, que incarnam na perfeição o general da Wehrmacht, Von Choltitz, e o cônsul sueco em Paris, Raoul Nordling. Digladiam-se em olhares e gestos, argumentos e palavras de uma elegância doutros tempos, encerrando em si mesmo um autêntico tratado de diplomacia, de uma diplomacia que hoje, quiçá, está obsoleta e seria incapaz de se repetir.


In O Diabo (6.5.2014)

quarta-feira, Abril 30, 2014

Obituário: Bob Hoskins (1942-2014)


Um actor pujante e carismático, de voz inconfundível (e como o sotaque cockney lhe assentava que nem uma luva) e talento para todos os papéis e mais alguns, mais os secundários do que os outros, infelizmente: de gangster a pirata, detective privado (sinto muito, Jessica Rabbit...) ou canalizador (e como ele dizia, e com razão, que «Super Mario Bros.» tinha sido o seu pior filme...). O seu melhor papel? Talvez o de Hilditch em «Felicia's Journey», de Egoyan, em 1999. Aos poucos, vão-se todos. Muita pena.

terça-feira, Abril 29, 2014

Filmes em revista sumária #450


Soco no estômago, alegoria do Mal, escalpelização do ser humano…, tudo isto e muito mais poderia titular à vontade o filme holandês «Borgman», de Alex van Warmerdam; um filme que alguns, ironicamente, talvez sejam levados a crer, antes de o verem, tratar-se de alguma biografia filmada do legendário tenista homónimo sueco… e não daquilo que efectivamente é: uma história com requintes de malvadez.

A sequência inicial em que padre e aldeãos vão incumbidos de tarefa divina e dão caça implacável aos sem-abrigo vampirescos (para se ser vampiro não é obrigatório beber-se sangue…) que habitam tocas no meio do bosque (ambiente predilecto para este tipo de coisa), é notável e premonitória. Lembra os escandinavos de antanho, a começar pelo vampiro de Dreyer. Mas há aqui uma moral que pode ser entendida como indevida e preconceituosa: a de que quando um sem-abrigo lhe bate à porta e pede para tomar um banho, pense duas vezes, pois pode meter-lhe o diabo no corpo…

«Borgman» é de uma violência inexcedível, dando dela largas ao longo de uma série de peripécias de raiz aparentemente benévola, que vão crescendo em espiral (termo adequado, por uma vez) demoníaca inexorável, a que nem as crianças (deixai vi-las a mim, as inocentes…) escapam. Nada ali é fruto do acaso e o propósito final está lá, é só estarmos atentos.

Pelo meio do estilhaçar completo de uma família, sem razão que a razão aparentemente conheça (piscadela de olho a Michael Haneke?), van Warmerdam vai-nos presenteando com pormenores tétricos de antologia, como por exemplo: os implantes na medula óssea como forma de arregimentação dos “fiéis”, as cabeças enfiadas em baldes de cimento adquirido no supermercado da esquina, os galgos saídos do cinema surreal de Buñuel.

Enquanto isso as criaturas de Demo somam, somem e seguem, e vão andar por aí.

«Borgman» chega a nós depois de uma nomeação para a Palma de Ouro de 2013, e ainda bem que chega. É um verdadeiro sufoco, mas ele é mais uma prova de que há muito bom cinema para além do bom cinema norte-americano.


In O Diabo (29.4.2014)

terça-feira, Abril 22, 2014

Filmes em revista sumária #449


É tempo de estreia de Wes Anderson. É tempo, assim, de um filme feito a régua e esquadro e de algo costumada e completamente diferente, para lá dos carretes da «normalidade» e do que vê por aí. Desta vez, porém, há muito mais desencanto no «puzzle» de personagens-caricatura (sempre tão próximas dos desenhos animados) e na «screwball comedy», em correria frenética (desde logo verbal…) por entre planos.

Mantêm-se as imagens vívidas e os «frames» dignos de postal turístico pincelado à mão, e o elenco e os seus amigos de luxo, tal como se mantém o humor negro corrosivo (ex. «gripe prussiana»), mas não há em «Grand Hotel Budapest» o habitual tom de paródia familiar, nem os filtros de imagem de um «Moonrise Kingdom», obsessivamente revivalistas. O tom é pesado e não há como fugir da fatalidade. Muito menos estamos perante o seu melhor filme, que continua a ser, sem muitas dúvidas, o seu primeiro: «The Royal Tenenbaums» .

Em «Grand Hotel Budapest» há um jogo profusamente simétrico e duplo, um «puzzle» onde o amor trágico e o poder bacoco se guerreiam, entre guerras mundiais e de alcova. No fundo, tudo gira em torno de dinheiro (que mais?) e de uma herança que motiva roubo e morte, e de um hotel de sonho, parado no tempo. Há peripécias impagáveis (por vezes roça o preciosismo de Buster Keaton) e piscadelas de olho cinéfilas, só vistas, mesmo, inteligentes e de um bom gosto refinado, a Lubitsch e Ophüls, por ex.

Ralph Fiennes e Mathieu Amalric são excelentes actores e estão soberbos. Os cenários (virtuais e reais) são um encantamento (desde logo os armazéns de Görlitz e o Zwinger), tal como a banda sonora de Alexandre Desplat é (mais uma vez) uma inspiração. As menções especiais vão direitinhas para o rosto de Mme. D, numa portentosa maquilhagem de Tilda Swinton, para a personagem de nome Zero (é um verdadeiro achado, o ser-se zero em tudo!) e, claro, para as obras de arte da pastelaria fina de Herr Mendl.

Wes Anderson comunica-nos no final do filme que se inspirou em Stefan Zweig. Fez bem.


In O Diabo (22.4.2014)

quarta-feira, Abril 16, 2014

Uma convenção muito especial


terça-feira, Abril 15, 2014

Vi accomodate!


Decorre até 18 de Maio, um pouco por todo o país (em Lisboa no Cinema S. Jorge, Cinemateca e Mercado de Sta. Clara - aqui talvez por ‘culpa’ da manteiga de «O Último Tango em Paris» …), a 7ª edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano, uma co-iniciativa de Il Sorpasso, Instituto Italiano de Cultura e Embaixada de Itália em Portugal. Um evento que é sempre bem-vindo, já que sem ele dificilmente se poderia ver cinema italiano, ainda que o sucesso assombroso (merecido) de «A Grande Beleza» possa obrigar a uma viragem nesta míngua crónica que nos circunscreve 365 dias a espectadores de filmes americanos (75% deles fitas), algum cinema francês e a uns pozinhos de cinematografias distantes.

A Festa voltou e traz com ela um pacote de secções, as mais diversas, sob o lema «La Famiglia». São longas e curtas em competição, de nomes desconhecidos e consagrados. Há nostalgia vinda de Pordenone, e de alguns Bava e dois Bertolucci. Há uma descoberta do fundo do baú - um Welles inacabado e julgado perdido até há pouco tempo, de nome «Too Much Johnson» - e há cinema juvenil do festival Giffoni. Há música, gastronomia, diversão. Motivos mais do que suficientes para aderirmos a esta mostra do que de melhor se vai rodando por terras de Fellini, Visconti, Rosselini, Pasolini, De Sica, De Santïs, Risi, Latuada, Damiani, Ferreri, Lattuada, Leone, Scola, Antonioni e «tutti quanti».

Sobre a família ser lema desta festa, cinematograficamente falando, é realmente verdade que a célula familiar é indissociável dos filmes italianos, dê lá por onde der. Seja por causa dos filmes de «gangsters, spaghetti e cannoli», seja por aquele copo-de-água épico da cena inicial de «O Padrinho», seja pelas personagens-sátira de «Amarcord» e dos patibulares de «Feios, Porcos e Maus». Seja por aquela mãe e aquele filho de «Mamma Roma», e por aqueloutros contemporâneos de «Eu Sou o Amor», por exemplo. É só escolher, num cinema que sabe sempre bem ver e ouvir num idioma lindíssimo. Rir, chorar e sonhar.

N.B. Para quando uma retrospectiva do bravíssimo Sordi?


In O Diabo (15.4.2014)

terça-feira, Abril 08, 2014

Filmes em revista sumária #448


A pergunta que se faz quando termina a projecção de «Obediência» é: como foi possível tanta estupidez junta, santo Deus?

A acreditar no pré-aviso feito ao espectador de que se está perante um filme baseado em factos verídicos, é realmente confrangedor ver como foi possível àquela pessoas, aparentemente instruídas, supostamente não acéfalas, serem apanhadas desprevenidas e levadas a acreditar tão ingenuamente no que uma voz do outro lado do telefone lhes ia dizendo, e a obedecerem ao que ela lhes ia ordenando que fizessem, algumas sem pestanejarem sequer. À inverosimilhança do que iam ouvindo, aqueles adultos responderam de forma ainda mais inverosímil. Mais, será que um episódio escabroso deste gabarito só é possível na América profunda? Talvez não.

Seja como for, há neste «huis clos» de Craig Zobel (a modos que um «Saw» mas sem sangue…) matéria do foro psicossocial (mesmo psicossomático) que nem especialistas nem os próprios protagonistas conseguirão explicar cabalmente: o dia em que tudo de mau aconteceu à gerente de loja (os pickles e o bacon não são por acaso…), o noivado que foi posto à prova dos nove, a integridade e a hombridade que se revelaram onde talvez menos se esperasse que se revelassem, etc.

Um filme «indie» na verdadeira acepção da palavra, uma pérola cinematográfica, mesmo, muito para além do que ultimamente a chancela tem vindo a certificar de modo automático, como se tudo se resumisse a um «check list» de teste americano.

Um filme que está muito bem realizado (basta dizer que não há um único tempo morto num filme que é passado, basicamente, no mesmo cubículo) e interpretado (os olhares, por exemplo, estão extraordinários). E tem pormenores deliciosos, como o da sequência tipicamente 70’s, já perto do final, do inspector da polícia a ir da esquadra para o local do crime. Pessoalmente, passarei a ir com outros olhos ao «fast food» do virar da esquina.

quarta-feira, Abril 02, 2014

No centenário de Alec Guiness


O melhor que se tem a fazer é comemorá-lo (re)vendo-o no pequeno écran, já que no grande só mesmo em cinematecas (às vezes, pode ser que alguém se lembre de o programar num ciclo de reprise, o que será inteiramente merecido, aliás).

No meio das mais de 50 aparições em filmes, telefilmes e séries, este grandíssimo actor da velha escola do Old Vic, tem por ‘cá’ um punhado de personagens para sempre inolvidáveis: Fagin («Oliver Twist»), as ‘n’ personagens em «Kind Hearts and Coronets», Coronel Nicholson («A Ponte do Rio Kwai»), Sidney Stratton («The Man in the White Suit»), Príncipe Faisal («Lawrence da Arábia»), Prof. Marcus («The Ladykillers»), Jim Wormold («Our Man in Havana»), John Barratt/Jacques De Gue («The Scapegoat»), >Pol («The Quiller Memorandum»), Obi-Wan Kenob («Star Wars»), Hitler («Hitler: The Last Ten Days»), e, claro, o televisivo George Smiley.

Ah, e estava completamente enganado quando afirmou de si mesmo: «Essentially I`m a small part actor who`s been lucky enough to play leading roles for most of his life..»

terça-feira, Abril 01, 2014

Filmes em revista sumária #447


Mais do que estar à hora errada no local errado, o que aconteceu ao jovem Oscar Grant naquele «réveillon» de 2008 ficou como «reality show» para a posteridade, filmado que foi em tempo real por testemunhas várias de telemóvel em punho, e registado dali para a frente como prova documental de uma tramitação judicial subsequente que resultou em nada, ou quase nada, não para ele, coitado, que foi desta para pior, mas para os seus e para todos quantos pensaram que se fizesse justiça, o que se fez mas pela rama. Mas um registo também para quem o soubesse desenvolver ficcionalmente.

Este episódio de brutalidade policial sem nexo correu mundo, mas a história das 24h que antecederam a rixa que descambou no desfecho fatídico que dá título ao filme, nem por isso, pelo que foi em boa hora que Ryan Coogler nos trouxe «Fruitvale Station - A Última Paragem», recuperando o trágico episódio e o que o precedeu. E se nunca viremos a saber se Oscar Grant quis ou não quis de facto corrigir o rumo da sua vida naquele dia, recusando viver em fio-de-navalha, ou se foi «apenas» vítima das circunstâncias, uma coisa é certa:

Este filme tem um qualquer condimento que o coloca muito para lá do filme deste género, tantas vezes panfletário, lugar-comum, em que a regra é ver quem debita mais «rap» ou profere mais palavrões. Até porque o facto de ser uma histórica comprovadamente verídica não pode explicar tudo, nem o explicam a realização virtuosa de Ryan Coogler, que não se deixa cair em tempos mortos nem resvalar para a lágrima feita, nem sequer a angústia ou o imenso remorso da personagem da mãe, incarnada por Octavia Spencer, essa extraordinária actriz.

Não, talvez seja tudo muito mais simples, talvez seja simplesmente porque o que aconteceu ao malogrado protagonista podia ter acontecido a qualquer um. É essa a tragédia humana.


In O Diabo (1.4.2014)

terça-feira, Março 25, 2014

Filmes em revista sumária #446


No rescaldo de «Uma Longa Viagem» a sensação que fica no ar é que tudo ou quase tudo correu mal ao australiano Jonathan Teplitzky com a adaptação ao cinema da autobiografia de Eric Lomax, um oficial e engenheiro de comunicações escocês, «maluquinho por comboios», que sofreu as passinhas enquanto prisioneiro de guerra do Japão em 1942, em Singapura, primeiro, e num campo de trabalhos forçados na Tailândia ocupada, depois; torturado que foi estupidamente nos intervalos de escravo ao serviço da construção do que viria a ficar conhecido por «Death Railway».

Desde logo, correu-lhe mal a tradução (mal-amanhada) do original «The Railway»: porquê uma longa viagem? Se é coisa que corre rapidamente no filme são os comboios e as viagens que o protagonista empreende, cá e lá. E a montagem, antes e depois da Guerra, prima também por «flashes» rápidos, algo trapalhões, como que em sintonia com a evolução histórica, por exemplo, por que passou a Birmânia, que virou Myanmar em 1989, mas que afinal de contas é hoje apenas Burma. Correu-lhe mal também o duplo pressuposto de que uma boa história verídica (e é muito boa a moral da história…) vale mais do que um bom argumentista, ou de que um par de actores de primeira água é certificado de qualidade mais do que suficiente para um filme. Um filme em contradição, também, centrado numa contradição factual: a de que os cerca de 400km de «carris do inferno» entre a Tailândia e a Birmânia são hoje um pólo turístico muito conhecido.

Restam-nos a fortíssima interpretação de Hiroyuki Sanada e, a espaços, a de Colin Firth, já que a de Nicole é quase zero (aliás, ela parece já não existir no meio de tanta plástica…). E o reforço do que já se sabia: Rio Kwai só há um, o de David Lean e Alec Guinness e mais nenhum.


In O Diabo (25.3.2014)

terça-feira, Março 18, 2014

Publicidade (definitivamente) não enganosa:


Filmes em revista sumária #445


Enquanto variante militarizada da série «Rat Pack», em boa hora recuperada por Soderbergh e amigos, de «Os Caçadores de Tesouros» apenas decorre como atractivo especial, para lá das estrelas de cinema que lhe dão corpo, a história ser verdadeira, ou perto disso. No resto é um rol de patuscadas, mais ou menos (mal) conseguidas, desempenhadas por actores bem conhecidos, em personagens bastante simpáticas (umas são mesmo apenas isso - Jean Dujardin só sabe rir, certo?), pelo meio de tiradas humorísticas e muita «acção», mas infelizmente sem o mínimo de cimento exigível para colar personagens e narrativa, não poucas vezes atabalhoada.

O plano de açambarcamento de um sem-número de obras de arte (alguém soube até hoje quantas foram?) a que Goering deu corpo no final da 2ª Guerra Mundial (nada que não tivesse sido feito antes por outros, poucos séculos antes, ainda que em menor dimensão, e nada certamente que não fosse copiado logo ali pelos soldados russos, com igual estratégia e fito), e para as quais algumas minas serviriam de esconderijo à moda de gruta de Ali-Babá; e a missão oficial de resgate e salvaguarda daquelas a que um oficial americano se lançou (com o necessário acordo de Roosevelt), pareciam ser garantia mais do que suficiente para que «Os Caçadores de Tesouros» fossem coisa bem melhor do que são: um filme de aventuras fraquinho (de guerra e acção é melhor nem falar), que nunca descola de um registo cómico e estereotipado desconcertante e que desperdiça o potencial (verídico) atrás referido.

Ou seja, Clooney não teve claramente unhas para tocar esta guitarra, e tinha valido mais se tivesse convencido o amigo Soderbergh (para já não falar em Spierlberg…) a ser o realizador em vez dele. Valham-nos algumas personagens (a de Bill Murray à cabeça), alguns cenários e peripécias, e saber-se que havia gente (ainda haverá?) como Donald Jeffries (excelente desempenho de Hugh Bonneville), disposta a morrer por uma obra de arte…

Kate Winslett, uma Estrela no Passeio da Fama


terça-feira, Março 11, 2014

Filmes em revista sumária #444


O Nebraska é um dos estados mais profundamente centrais dos E.U.A. A bem dizer, fica de tal maneira incrustado no meio daqueles que até tem 2 fusos horários. E se outrora foi palco de investidas históricas e de batalhas sanguinolentas com os «peles vermelhas», durante a Conquista do Oeste, o Nebraska de hoje nem 10 habitantes tem por km2, sendo um estado desoladamente despovoado, lento e monótono, local ideal, por conseguinte, para se rodar um «road movie» como este que agora nos traz Alexander Payne, autor do memorável «About Schmidt», filme com o qual, aliás, apresenta parecenças indisfarçáveis.

E se Payne decidiu bem pelo local, melhor optou pelo preto e branco para fotografar este desconsolado e melancólico filme, e mais ainda o fez em relação a Bruce Dern, escolhendo-o para protagonista, ele que «apenas» tem sido secundário - vilão, sobretudo - em dezenas de «westerns» e outros tantos policiais e que consegue aqui, quiçá, o momento mais alto da sua já longa carreira. Dern cola-se sobriamente à personagem de velho pai de família, de alguém que é quase ignorado e ostracizado pelos seus; um homem de poucas ou nenhumas palavras e que, incauto, é vítima de publicidade enganosa e, pior, dos amigos da onça e dos oportunistas de toda a espécie que lhe vão aparecendo pelo caminho ao longo da sua demanda.

No meio de tamanho desencanto e não menos frustração há lugar à poesia (sim, à poesia) e à esperança de que é sempre possível recolocar uma família no trilho certo, não obstante as adversidades. Melhor cena do filme, a de pai e filho à procura da prótese dentária na linha do comboio. Melhor «snapshot», o de tios e primos olhando bovinamente para a televisão.

terça-feira, Março 04, 2014

Filmes em revista sumária #443


Ver Roma e depois morrer, reza o adágio. Mas… será que já só há «mortos» por detrás de tamanha beleza e ninguém ainda se apercebeu disso?

O mote para este grandíssimo filme de Paolo Sorrentino salta-nos antes do genérico inicial, com o turista japonês que mira a cidade eterna desde a Fonte de Água Paula, na colina de Gianicolo, e que cai para o lado, fulminado por tamanha beleza. «Raccord» imediato e eis-nos no meio de uma festa frenética na cobertura de um prédio, sob o olhar da Martini (e que outra marca poderia ser?): a festa dos 65 anos de Jep Gambardella, personagem central e rei dos mundanos.

E se «A Grande Beleza» tem semelhanças evidentes com os filmes de Fellini («Dolce Vita» à cabeça), pelo caricato de algumas das personagens, pela «socialite» em contínuo estado de embriaguez psíquica, etc., há também um forte tom lynchiano (já presente no filme anterior de Sorrentino) que contrapõe a esse lado burlesco, optimista, «vivace» e romano do filme, um vórtice de profundo desencanto, uma nostalgia exasperante, a impossibilidade da fuga, a tragédia do faz-de-conta.

«A Grande Beleza» é um tratado sobre a decadência (que também é arte, não?), criação do homem (divina?), e sobre o labirinto de como se aceder à verdadeira beleza, à que não passa nem por cirurgias plásticas nem por fatos à medida, artistas de vanguarda e moralistas de partido. À que está fechada a «sete chaves» mas à guarda de alguém misterioso, elegante e… coxo. À que só os bafejados pela capacidade de peregrinarem às raízes do «eu» conseguem almejar.

Sem dúvida alguma que «A Grande Beleza» é um dos grandes filmes italianos dos últimos anos (muitos). Conta com um Toni Servillo absolutamente fabuloso, e sequências inteiras de se ficar sem fôlego (nós e ele), graças a ele e a um idioma único, uma banda sonora que remete para a Carrà, uma cenografia exemplar (dentro e fora do «plateau») e a …Roma. Façam favor de ficar até ao fim do genérico final, ponte sob ponte do Tibre.

Resumindo: uma «bellezza da morire».


In O Diabo (4-3-2014)

segunda-feira, Março 03, 2014

Obituário: Alain Resnais (1922-2014)


Há cada vez menos assim e «The Guardian» resumiu bem a sua carreira: «60 years of sensational cerebral film-making». Mas podia ter acrescentado que o seu cinema também é fresco, imaginativo, jovem, estético e de um extremo bom gosto, e que era insuperável a filmar cenas de amor, ou bien ...